Crítica | Cinema

Hava, Maryam, Ayesha

Jovens mulheres

(Hava, Maryam, Ayesha, AFG, IRI, FRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sahraa Karimi
  • Roteiro: Sahraa Karimi
  • Elenco: Arezoo Ariapoor, Fereshta Afshar, Hasiba Ebrahimi
  • Duração: 83 minutos

A diretora Sahraa Karimi é um caso único no Afeganistão. Ela é a única mulher no seu país a ter um PhD em cinema, o que fala muito mais sobre o lugar onde nasceu do que dela. Oriunda de um lugar onde nenhum avanço de gênero acontece sem que muitos outros atrasos ocorram (ou sequer conquistas sejam alcançadas sem sacrifícios reais), que ela tenha uma carreira premiada aos 35 anos é um feito que ultrapassa seus méritos artísticos. Assistir ao seu mais recente filme, Hava, Maryam, Ayesha, e descortinar o que tanto de mensagem cabe em sua realização, é uma tarefa que ultrapassa a cinefilia e abre alas para uma discussão sociológica que o cinema não compreende por completo.

À primeira vista, o que seu filme faz é uma evocação do cinema iraniano nas três últimas décadas, inspirada por nomes como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Majid Majidi e tantos outros. Esse cinema de microscópica minúcia e agigantada percepção humana, no entanto, foram poucas vezes conduzidos por uma mulher — Samira Makhmalbaf, filha de Mohsen, é uma presença rara atrás das câmeras. Que Karimi se debruce por um universo essencialmente feminino, após tantos homens tentarem contar suas histórias (por exemplo, Fora do Jogo, de Jafar Panahi), parece fácil do ponto de vista da iniciativa, mas levando em conta a raridade de sua situação e de igualmente ter nascido no Irã, seu olhar se eleva.

Hava, Maryam, Ayesha

E não são apenas dados e fatos que a tornam relevante, mas o que ela filma, como filma, qual a sua perspectiva diante de sua temática e do ineditismo com que trata o feminino nesse recorte específico, dentro de sua região e mesmo fora. Não é apenas um “universo feminino”, mas uma tríade de mulheres grávidas, em diferentes estágios de dificuldades com essa situação. Karimi não paternaliza nenhuma de suas personagens, nem as coloca em situação de semelhança pessoal — cada uma tem sua história com o bebê que carrega, sua história com o momento em que vive, e sua decisão para com o andamento e a resolução desse estado, que será posto em cheque em três segmentos.

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Há uma intercomunicação muito fina entre essas três personagens-título e suas trajetórias, que se dividem entre o extremo passado, o extremo futuro e o exato meio do caminho entre um lugar e outro — lógico que estamos falando do sudeste asiático, então as definições entre tradição e modernidade, de olhar e de tratamento, têm significados muito sui generis. Mas sim, Hava é o espelho do que o cinema nos apresentou a respeito do tratamento oferecido à mulher naquela região, Maryam é uma figura com a voz que não conseguiríamos imaginar nascida ali e Ayesha é o equilíbrio, presa a um mundo do qual não quer participar embora precise, e ainda assim com a iniciativa e o poder decisório de controlar o que pode ser controlado.

Hava, Maryam, Ayesha

As três histórias são carregadas de significados, símbolos da maternidade tão verdadeiramente puros e também poderosos, que elevam o filme em muito mais do que um tratado sobre representatividade ou uma homenagem a mestres do cinema mundial reverberados por um novo olhar. Momentos como o desfecho de Hava, todo seu arco, se encerrar daquela forma, o papel do leite e da ascensão que representa também um momento de perigo, ou os pássaros que ousam voar no telhado de onde Ayesha se encontra com a amiga, a liberdade tão próxima e ao mesmo tempo tão conservadora, encantam e revelam uma diretora que aprendeu com os melhores possíveis e foi inteligente para reafirmá-los no seu próprio lugar, na sua própria narrativa, reescrevendo o que já precisa ser reencenado em relação ao feminino e ao mundo que não chancela sua evolução.

O olhar da direção e do roteiro de Karimi são desafiadores para também elencar homens em diferentes estágios do patriarcado, o dominador arcaico, o dominado caído em desgraça cujo rosto nem é permitido à produção, e o novo com gosto de velho, ou vice versa. Aquém do poder que suas parceiras (e intérpretes) entregam e representam, o homem que a diretora nos apresenta não é interessante de forma alguma, e é pela presença deles, seus atos, sua covardia e suas mentiras, que as protagonistas criam saídas estratégicas. A cena onde Ayesha é presenteada e o que acontece posteriormente com tal presente, é uma forma de dizer que um masculino consciente está nascendo, ou apenas um providencial?

Hava, Maryam, Ayesha

Ainda que o miolo da produção transite pela estrutura do A Voz Humana de Jean Cocteau, e acabe por se repetir e até mesmo esgotar suas possibilidades rápido demais, o todo de Hava, Maryam, Ayesha é muito mais refrescante e poderoso do que esse retrato moderno de uma mulher que não se arrasta por um homem, mas exatamente tenta se livrar dele — o que é também uma subversão da obra em questão. Seus extremos, no entanto, tem humanidade e carisma em porções avantajadas, cada qual direcionando traços de tensão à narrativa, ao passo em que costuram suas histórias particulares com desejos genuínos de escapar à tradições misóginas de um mundo que parece emperrado, mas que essas quatro mulheres não demonstram medo de provocar as mudanças necessárias para empregar um novo amanhã.

Um grande momento
Hava e o gato

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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