Crítica | Festival

Influência

(Influence, RSA, CAN, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Diana Neille, Richard Poplak
  • Roteiro: Diana Neille, Richard Poplak
  • Duração: 105 minutos
  • Nota:

“Se não pudermos reconhecer o que é verdade como vamos reconhecer a guerra contra a verdade?” – em tempos de fake news, a guerra das narrativas rende e muito em termos de abordagens cinematográficas no documentário. Após Dilema das Redes e Privacidade Hackeada mais um tentáculo do grande polvo que representa os poderosos bilionários do mundo está sendo esmiuçado. É a pós-verdade ou todas as maneiras de se manipular informações e derrubar democracias, parte do ofício de lobistas como Lord Tim Bell, o personagem principal de Influência, selecionado para o É Tudo Verdade disponível na plataforma Looke.

Os documentaristas Diana Neille e Richard Poplak rodaram o mundo, agindo como globetrotters para investigar os vestígios da nefasta influência da Bell Pottinger, empresa de Bell, que com o seu “trabalho” derrubou governos e instalou o caos em países como a África do Sul pós-apartheid. Mesmo governos do Brasil, Rússia e Chile de Pinochet não escaparam de suas artimanhas – Bell seria uma espécie de Steve Bannon mais cínico e britânico, trocando a mineração de dados pela publicidade.

Tim Bell é o foco do documentário Influência (2020)

Composto de muitas entrevistas com ex-assessores políticos, publicitários, colegas de Bell, jornalistas e lobistas, Influência por vezes se torna cansativo, mas o assunto provoca tanto fascínio e repulsa que a ele se assiste até o fim para entender como nesse planeta “existem pessoas que jogam pelas regras e aquelas que manipulam as regras, fazendo de tudo para que o seu cliente vença no final”. Pessoas que não são presas, que não são impedidas de alastrar o mal pois estão agindo em nome do Capital.

Entre os irmãos Gupta e o ex-presidente Jacob Zuma, se configura a derrocada do homem que recebia milhões de empresários interessados em derrubar gestões e colocar novos peões, mais alinhados com seus interesses, à frente de governos ditos democráticos.

Influência (2020)

Infame até a última fibra do seu ser, Tim Bell – falecido em 2019 – viveu para experimentar o poder e desfrutar da sensação de ser um deus da destruição. Braço direito de Margareth Thatcher, a Dama de Ferro, parece ter sido um dos primeiros publicitários a fazer lobby político e um dos fundadores da profissão de relações públicas. A própria ex-primeira ministra do Reino Unido construiu a imagem populista de que seria a resposta à corrupção do partido trabalhista, fazendo um governo que devolveria o poder ao povo e expulsaria a ameaça socialista.

O acesso que a dupla de documentaristas teve a um acervo de imagens e documentos de época só se equipara ao discurso sem meios-termos de Bell, que é acompanhado ao longo do documentário dando uma entrevista radiofônica e refletindo sobre o seu voo de Ícaro. Típico pobre de direita na sua origem proletária, nascido no subúrbio de Southgate, ele ascendeu e se tornou o guru da desinformação quando se tornou sócio da Saatchi & Saatchi nos anos 1970.

Tim Bell é o foco do documentário Influência (2020)

Entre a admiração e a repulsa, o documentário Influência segue uma tendência de muitos desse tipo, tidos como incendiários, que se debruçam sobre contendas políticas seguindo as regras do jornalismo investigativo para, cronologicamente, dar conta do cataclismo provocado por escroques como Bell e tantos por aí – como os filhos de Bolsonaro -, que se valem do convencimento, da manipulação e da mentira para convulsionar países. Tudo a serviço de quem oferecer mais.

O filme Influência deixa um amargor mas também uma possibilidade de reação, ruptura com as engrenagens de opressão e a riqueza indecorosa que usa populações como massa de manobra, quando mostra o ofício da jornalista investigativa e da militante Phumzile “garras de Tigre” Van Damme, que expõem a Bell Pottinger a ponto de forçar a derrocada da empresa. Afastado e esgotado, tido como obscuro e indesejado, Tim Bell traga lentamente seus cigarros enquanto tenta usar o holofote dado pelos documentaristas para ser “honesto” e despejar absurdos como a simpatia por ditadores e a certeza de que os partidos de esquerda são a escória, eximindo-se da tentativa de ter consciência em meio a um lamaçal advindo do dinheiro que aos poucos divide e extermina a humanidade.

Um grande momento
A entrevista fatídica na TV

[25º É Tudo Verdade]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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