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Inverno

Frio constante

(Inverno, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Suspense
  • Direção: Paulo Fontenelle
  • Roteiro: Paulo Fontenelle, Thaila Ayala
  • Elenco: Renato Goes, Thaila Ayala, Bárbara Reis
  • Duração: 69 minutos

O advento da pandemia gerou inúmeras narrativas engatilhadas pela própria, gerando produções originais que a usassem como disparador. O caso de ‘Inverno’, que estreia hoje no Telecine, deve ser um deles, refletindo muitas inquietações que esse nosso ‘novo normal’ tratou de colocar na pauta dos dias. Ainda que parte dessas produções possam ter sofrido adaptações dentro do que já se propunha em seu roteiro, a maior parte deve ter vindo de fato de uma demanda que a angústia do hoje moldou. Tendo esses elementos que nunca tinham sido experimentados antes em mãos, como elaborar uma estrutura cênica que pareça minimamente convincente sem ferir lógicas e criar modelos ineficazes?

Paulo Fontenelle, diretor de ‘Divã a 2’ (não confundir com Paulo Henrique Fontenelle, de ‘Cássia’), é um profissional experiente que já tinha trabalhado no cinema de gênero anteriormente, e aqui aposta em uma ideia de suspense psicológico que poderia soar interessante. Deflagrado por outros elementos que não conversam com o nosso tempo, o filme sabe absorver essa camada atual e reverberar sua dose de inquietação mediante o estado das coisas atual. Essa delicada relação entre o que é fílmico essencialmente e o que é contemporâneo e extra fílmico, constroem o que de melhor existe no longa. Uma urgência dentro de sua própria atmosfera, além da tentativa de criar uma agitação particular. 

Divulgação

A partir daí, e paralelo ao momento de Renato Góes na carreira (que vem num crescendo, entre ‘Por Trás do Céu’ e ‘Legalize Já!’), o filme embarca numa viagem até rápida – são pouco mais de uma hora de produção – que descortina a relação de um casal com uma amiga que os visita durante o período mais agudo da pandemia, e o que nasce a partir das paranoias prévias entre esses três personagens. Um clima até envolvente, que prenuncia mais camadas do que sua rapidez é capaz de entronizar, e a produção começa muito rapidamente a não conseguir elencar a quantidade de situações que apresenta. Seu manancial de tentativas de rumos e de soluções (psicológicas ou não) acaba se mostrando excessivo. 

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O filme não consegue se realizar a contento no que pretende construir, seja nas relações interpessoais (e olha que temos um casal da vida real em cena, Góes e Thaila Ayala) ou nas inserções emocionais que o filme tenta trilhar na direção do espectador. Há um clima de suspense, esse sim, que funciona vez por outra, mas que não leva a muitas soluções – já dúvidas, essas sim pairam durante toda a produção. E nem são daquelas positivadas tradicionais de um longa de suspense, que eleva o material e nos coloca em contato a possibilidades concretas, mas vácuos de ideias que parecem disfarçados de grandes eventos. O filme escapa de nossos dedos a todo momento. 

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O trio de atores em cena não é responsável pelo desacerto, até porque há pouca exigência em sua direção. Além do casal Góes e Ayala, o terceiro elemento representado por Bárbara Reis, que poderia capitalizar uma nova ordem dentro da moldura observada, não é bem desenvolvida pelo roteiro. Também porque não há um prólogo para sua entrada, é tudo muito abrupto e de resultado corriqueiro – não há um trabalho para que sua estrutura soe para além do básico. Os atores tentam e eventualmente alcançam lugares que poderiam ter estofo, mas Fontenelle parece mais preocupado com o gênero do que em dar uma base a ele – e reside aí parte considerável do problema, já que não temos como nos importar com nada em cena.

A fotografia de Bruno Cunha não ajuda em conseguir uma ambiguidade necessária para um filme de suspense, porque não há contraste – é tudo lúgubre e soturno o tempo todo, logo não há contraponto para o que sua única textura. Não há um momento sinuoso no filme, tendo em vista que por toda a duração a expectativa é da mesma leitura conceitual. Na verdade, isso também é um problema que cabe a Fontenelle, que não equilibra a paleta de seu filme. É tudo muito horizontal e sem agudeza, pelo motivo de que todas as notas são sempre tocadas muitos tons acima. Existia, acredito eu, todas as intenções (e até possibilidades) de escancarar em ‘Inverno’ o clima do momento. Mas, coletivamente, se trata de um projeto inchado, que nunca encontra um momento de respiração adequada.

Um grande momento
A intimidade de Ana e Beatriz

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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