Crítica | Streaming

Capitã Nova

Escapismo para toda a família

(Captain Nova, NED, 2021)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Maurice Trouwborst
  • Roteiro: Lotte Tabbers, Maurice Trouwborst
  • Elenco: Kika van de Vijver, Anniek Pheifer, Marouane Meftah, Hannah van Lunteren, Joep Vermolen, Pierre Bokma, Robbert Bleij, J. V. Martin, Steef Cuijpers, Ricky Koole
  • Duração: 86 minutos

Não é a primeira vez que a Netflix comete um deslize parecido com esse, e ficamos nos questionando se não há uma forma de impedir isso no futuro, ou se a intenção é provocar esse tipo de encontro mesmo. Pois bem, O Projeto Adam é um filme sobre um homem do futuro que volta no tempo para impedir que eventos do passado tragam consequências desastrosas para o seu tempo – e para a Terra. Capitã Nova, estreia da Netflix um mês depois do lançamento do longa protagonizado por Ryan Reynolds, é sobre uma mulher do futuro que volta no tempo para impedir que eventos do passado tragam consequências desastrosas para o seu tempo – e para a Terra. Sério que ninguém percebeu as estranhas coincidências temáticas? As pessoas não são pagas para isso, ou tudo isso é proposital, para um filme resgatar o outro?

O filme é uma produção dos Países Baixos dirigida e roteirizada por Maurice Trouwborst, que a despeito de ter muitos pontos narrativos em comum com o grande lançamento da plataforma no mês passado, ataca em tom diferente. Enquanto lá predominava o bom humor e a proposta familiar, Capitã Nova é um filme sério, cuja intenção tem fundo ecológico e evolutivo, relacionado aos estragos causados no planeta por nós mesmos, ainda que com intenções “positivas”. Não tem caráter de auto-ajuda, apenas um olhar claramente educativo para o entretenimento. Ao contrário do que poderíamos supor, nada disso soa como didático e/ou pedante em tela.

O filme é um passatempo, acima de tudo. Sua visão humanitária não atravanca a diversão e a produção será um sucesso claro por conta dessa característica essencialmente cinematográfica – sua narrativa não quer mudar o mundo, sua mensagem talvez. Mas no que concerne a forma como ele se debruça sobre a ficção científica, a produção é daquelas recomendadas para toda a família que verdadeiramente agrada, por não escolher caminhos excessivamente elaborados. É tudo muito simples e não precisaria ser diferente, diante de seu cuidado estético sem exibição; tudo que vemos não soa como exagerado, mas como cuidadoso.

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Tematicamente, viajar no tempo e encontrar uma versão mais jovem de si nada tem de recente no cinema. O que Capitã Nova tenta é de outras ordens, como colocar uma trama adulta protagonizada por crianças funcionar a contento, é não paternalizar seus personagens centrais nem seu discurso, é divertir com um mínimo de competência para tal e manter uma coerência no tratamento que dá a essas discussões. Paralelo a isso, existe o escapismo que o filme aposta, e que não é desprovido de possibilidades artísticas, tais como uma direção de arte caprichada e uma edição igualmente competente.

Capitã Nova
Boris Suyderhoud Photography

O longa ainda aposta em algo muito curioso, porém arriscado. Em cenas temos muito mais mocinhos que vilões, na verdade se é que os vilões estão no caminho. Sim, existe aquele tradicional “homem muito rico e ganancioso disposto a tudo”, mas ele está em segundo plano (terceiro? quarto?) dentro da narrativa, o que talvez obrigue a jogar suas ideias de vilanias em nós mesmos, enquanto sociedade. A reta final e o que se entende como solução do roteiro nada mais é do que um merecido puxão de orelha, que precisamos levar. Não é o caso de retirar violência da imagem mas de suavizar um encaminhamento narrativo, que já não foge do tradicional, mas que pode ser observado sob um outro prisma sem perder vigor.

Não se trata de algo que vá mudar a vida de alguém, e provavelmente sua pegada não dure nem na retina nem na memória de qualquer um por mais de um mês, mas essa é a capacidade de vida útil de um longa fast food hoje, seja ele produzido pela Marvel ou pela Disney. O que fica, no fim das contas, são momentos esparsos – o tom amarelado da Terra no futuro, remetendo a Mad Max: Estrada da Fúria; o afeto genuíno que nasce entre “a adulta Nova” e o pequeno Nas; a dupla azeitada formada por Hannah van Lunteren e Joep Vermolen; o plano final. Particularmente esse plano, mostrando o nascimento de uma história de amor construída pela alteração do tal “efeito borboleta”, costura uma delicadeza a uma ideia que o filme desenha aos poucos, até se tornar inevitável com o conhecimento de um futuro que só uma alteração pode ser capaz de criar.

Um grande momento
A tensão depois do anúncio na TV

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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Jetro
Jetro
03/04/2022 15:55

Pior filme scifi de viagem no tempo que já vi na vida.

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