Crítica | Streaming

O Projeto Adam

De volta para o passado

(The Adam Project, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Shawn Levy
  • Roteiro: Jonathan Tropper, T.S. Nowlin, Jennifer Flackett, Mark Levin
  • Elenco: Ryan Reynolds, Walker Scobell, Mark Ruffalo, Jennifer Garner, Catherine Keener, Zoë Saldaña, Alex Mallari Jr, Braxton Bjerken, Kasra Wong
  • Duração: 106 minutos

Antes de mais nada, é preciso liberar o texto para fabular sobre o próprio passado. Ora bolas, O Projeto Adam, estreia de hoje e maior lançamento do mês da Netflix, é uma produção sobre viagem no tempo protagonizada por um “menino”, de 12 anos. Logo, se o crítico estiver recordando agora suas experiências na mesma idade, principalmente quando ele assistia coisas deliciosas como Viagem ao Mundo dos Sonhos na Sessão da Tarde, tá liberado. Ao fim do novo filme de Shawn Levy, a torcida do espectador de 40 é que os que têm menos da metade da sua idade tenham essa mesma entrega ao filme, porque a intenção nostálgica faz parte do pacote aqui.

Levy e Ryan Reynolds repetem a parceria de sucesso que rendeu ano passado o hit Free Guy em nova aventura infanto-juvenil que captura o melhor de muitos mundos, mas entendendo que a personalidade de seu astro é um DNA que o público não só ainda aceita, como anseia por ela. Então é lamentar por quem não gosta do que o protagonista de Deadpool têm feito com a sua carreira, porque aqui o “estrago” é tamanho, que contaminou inclusive Walker Scobell, sua versão mirim, que não passa de um mini-Reynolds. De valores claramente modestos, o filme tem um (ou muitos) pé no futuro, mas seus valores narrativos estão nos laços que unem uma grande família desfeita pelo tempo – e pelo trabalho.

O Projeto Adam
Doane Gregory/Netflix

A verdade é que não se sente falta de mirabolantes efeitos especiais na produção, nem se parece uma economia por parte da Netflix que eles sejam tão pontuais. O Projeto Adam de verdade usa seu painel maior para contar a história dessa família que a vida desfez, por inúmeros motivos; laços desfeitos pelo destino e pela mágoa que precisam de uma ajudinha dos cada vez mais onipresentes buracos de minhoca para reconectar afetos com pequenas viagens no tempo – quem nunca? Assim, quando surgem em cena, os efeitos ajudam a amarrar seus propósitos, e não são escravizados pela narrativa que os impele ao espectador. O interesse maior é no encontro de duas versões de uma mesma pessoa, ou de quando os pais encontrarão os filhos em idades inimagináveis, e daí desenvolver suas relações mais uma vez.

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De partida, há uma sacada genial na produção. Como o mote principal de seu enredo são essas inúmeras formas de interconexão temporal, o filme coloca no centro da discussão um casal que a cinefilia nos forjou em bases semelhantes. É lindo reencontrar, mesmo que em uma única cena juntos, Jennifer Garner e Mark Ruffalo e recordar seu primeiro encontro em De Repente 30, e pensar que a menina que sonhava com um crescimento que efetivamente acontecia por mágica, se casou com seu grande amor, e juntos eles tiveram o protagonista de O Projeto Adam. Esse dado emocional compõe o quadro emocional que ajuda o espectador a se familiarizar ainda mais com uma família que se desfez.

O Projeto Adam
Doane Gregory/Netflix

A parceria e o entendimento entregue ao público entre Reynolds e Scobell é outra suculência da produção, que acerta demais ao interpor esses personagens, que na verdade são a mesma pessoa em tempos diversos. Há inteligência de análise em ambos e eles se entendem e se complementam a cada cena com sagazes posicionamentos, tudo realizado de maneira exemplar. Já a vilã interpretada com a elegância de sempre de Catherine Keener, apesar do talento que a atriz nunca deixa de entregar, promove mais seu carisma e sua delicadeza do que uma sensação de perigo. Talvez fosse a intenção, para que o todo sempre seguisse na direção da leveza, do acerto de contas entre pessoas que precisam se reencontrar.

A sensação ao final da jornada é próxima com a que seus personagens sentem – missão cumprida, em uma seara que a Netflix não necessariamente costuma acertar, as fantasias para o grande público. Em O Projeto Adam, todos os propósitos, de contar uma história de recuperação de afetos adormecidos, se traçam com uma aventura empolgante, que tecnicamente não se propõe a arrebatar porque entende que sua atmosfera é de outra natureza. Que o elenco tenha compreendido isso e que o próprio Levy equilibre esses dois lados de sua “expertise”, é a chave do sucesso desse banho de nostalgia.

Um grande momento
O reencontro entre Adam e Laura

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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