Crítica | Cinema

Free Guy: Assumindo o Controle

Terreno perfeito para um Zé ninguém salvar o dia

(Free Guy, EUA, CAN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção Científica
  • Direção: Shawn Levy
  • Roteiro: Zak Penn, Matt Lieberman
  • Elenco: Ryan Reynolds, Jodie Comer, Lil Rel Howery, Joe Keery, Utkarsh Ambudkar, Taika Waititi
  • Duração: 115 minutos

Em Jogador Número 1, de Steven Spielberg, Tye Sheridan é um jovem nerd que precisa abandonar o mundo virtual e experimentar a realidade a partir do amor que surge por outra jogadora para zerar o jogo e salvar o mundo. Acaba que o filme engaja mais pelas referências que traz, uma profusão de easter eggs sobre o mundo dos games e a cultura pop do que propriamente por seu enredo, gestado pelo roteirista Zak Penn a partir de um livro de relativo sucesso comercial. Em Free Guy: Assumindo o Controle, Penn se une a Matt Lieberman e o resultado que se vê na tela é realmente uma evolução a partir de uma premissa meio que parecida com a do filme de 2018, mas que, enquanto produto fílmico, traz uma possibilidade de imersão real — e que seria ainda mais exuberante se exibido em salas com tecnologia 4D.

É de Lieberman o argumento de Free Guy: Assumindo o Controle, uma produção da Fox que ainda pertence a leva pré-aquisição pela Disney, mas coaduna bem demais com os valores da gigante do cinema: um herói carismático e bobo mudando o mundo. Ele é ninguém mais, ninguém menos que Ryan Reynolds, que se não é o “amigão da confiança” se tornou, desde o sucesso estrondoso de Deadpool, um astro confiável pela sua versatilidade. Some-se a ele no elenco nomes fortes como Jodie Comer, Lil Rel Howery, Joe Keery, Utkarsh Ambudkar e Taika Waititi e a festa estará completa.

Free Guy: Assumindo o Controle
© 20th Century Studios

E é num clima de celebração que se desenrola boa parte da trama de Free Guy, mesmo que este siga a formulaica estrutura da jornada do monomito, o faz com graça e sem todas as obviedades convenientes. Guy (Reynolds) é um cidadão pacato que todo o santo dia veste a mesma blusa azul pálida, toma seu desjejum sem graça, passa na cafeteria do bairro e segue até a agência bancária onde trabalha como atendente. A grande diferença é que ele é um NPC (non playable characther, personagem não jogável) do jogo de tiro, porrada e bomba Free City – uma cruza de Gran Theft Auto e Fortnite. Guy vive e morre todo o santo dia, pelo menos até dar de cara com a MolotvGirl.

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O ponto de inflexão e virada da história — o seu mundo não existe ou você mesmo é um construto, não uma pessoa tangível — já foi explorado em filmes, como Show de Truman e Walter Mitty com bons e maus resultados. Sem extrapolar nas expectativas, mas também evitando fazer mais um blockbuster com gosto de fast food que provoca aquela breve sensação de satisfação, Levy e a dupla de roteiristas conseguem fazer perdurar o efeito gerando uma experiência emocional, divertida e recheada de truques bacanas.

Free Guy: Assumindo o Controle
© 20th Century Studios

A tecnologia de imersão total no mundo da virtualidade dos games já vinha sendo explorado em produtos como o mangá que depois originou o anime Sword Art Online e é intitulada Isenkai. Mas especialmente Lieberman e Levy trazem para o ocidente esse conceito o trabalhando em uma fábula moderna recheada de efeitos visuais incríveis sobre descobrir o sentido da existência e achar um propósito para si. Quando Guy vai aos poucos extrapolando sua programação original e sendo um algoritmo, uma inteligência artificial que vai seguindo um caminho totalmente novo ele altera o mundo de Free City definitivamente. Logo os outros NPC também começam a sair do script e os jogadores do mundo real ficam intrigados e se perguntando se é alguma jogada da fabricante ou bug do jogo.

A trama principal, a história de Guy, vai sendo embrenhada de forma orgânica pela subtrama dos programadores Millie (Jodie Comer) e Keys (Joe Keery) que tentam sabotar os planos de Antoine (Taika Waititi) e reaver o jogo que eles criaram, Life Itself. Waititi inclusive está histriônico como o Mark Zuckenberg dessa história, um tipo ambicioso e sem talentos que rouba a ideia da IA super avançada e que desenvolve livre arbítrio lançada pelos programadores Millie e Keys para tornar melhor a jogabilidade de Free City.

E evidente que quanto mais Guy vai se desenvolvendo no jogo, colocando óculos escuro e invertendo a lógica de praticar atos bondosos ao invés de criminosos pela cidade para “upar” – ganhar mais itens, dinheiro e se tornar mais forte no jogo – gera desconforto e medo no melhor amigo Buddy (o sempre engraçadíssimo Lil Rel Howery). A química de Reynolds e Lil Rel é ótima, assim como a com Comer, que parece se divertir um bocado em uma produção mais leve, distante do que costuma fazer em Killing Eve ou em dramas de época como White Princess.

Free Guy: Assumindo o Controle
© 20th Century Studios

Com Free Guy, Shawn Levy (que dirigiu a franquia Uma Noite no Museu e episódios de Stranger Things) realiza seu melhor filme em muito tempo, usando de metáforas da infância para humanizar os personagens não humanos como sorvetes de chiclete, embalos nos balanços ou a música “Fantasy” da Mariah Carey. Ainda houve um acerto bacana em chamar YouTubers famosos para comentarem o jogo e as mudanças que vão ocorrendo por conta da participação cada vez mais chamativa de Guy. Channing Tatum surge hilário numa pequena mas importante ponta como a skin, o avatar usado por um jogador que mora na casa da mãe. E outros personagens do jogo são dublados por nomes como Dwayne Johnson e John Krasinski.

Coeso, dificilmente Free Guy abre brecha para continuações, pelo menos não com a mesma dinâmica e personagens. Mas que Ryan Reynolds pode, com o time certo de colaboradores, estar originando mais uma franquia, disso não há como duvidar. Com uma direção segura e sem arroubos como a de Shawn Levy, sustentada por um bom roteiro que não traz só fan service ou referências a todo sem conectar numa história empolgante com personagens bem delineado, é até um alivio pensar que possam vir mais famigeradas continuações que tenham algo mais do que um vazio acachapante de ação sem substância como munição. Free Guy e o novo O Esquadrão Suicida são exemplos satisfatórios de filmes arrasa-quarteirão com coração, cada um equilibrando um pouco mais o grande confronto midiático desse momento na indústria do cinema entre Disney e Warner Bros.

Um grande momento
Com o escudo do capitão América e o sabre de luz

Nota: 8

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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