Crítica | Catálogo

Belfast

Memórias embaçadas

(Belfast, GBR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Kenneth Branagh
  • Roteiro: Kenneth Branagh
  • Elenco: Jude Hill, Lewis McAskie, Caitriona Balfe, Jamie Dornan, Judi Dench, Ciarán Hinds, Josie Walker, Freya Yates, Nessa Eriksson, Charlie Barnard
  • Duração: 98 minutos

Kenneth Branagh tem uma visão fabular da própria infância, ou ao menos tentou em sua porção cinematográfica elevar os momentos mais cândidos e varrer para debaixo do tapete as questões mais proibitivas. Nasceu assim uma visão genérica de uma situação extremamente pessoal, seu Belfast, indicado a 7 Oscars – porém muito menos do que poderia, caso tivesse sido verdadeiramente abraçado – é uma apologia à memória, porém com ênfase na afetiva e diminuindo a visão crítica que um adulto poderia angariar com seu próprio passado. Se existiu alguma tentativa de tornar singular sua versão dos fatos acontecidos entre 1969 e 1970 na região onde morava, isso ficou na intenção.

O que transborda da visão de Branagh para os eventos que ele mesmo vivenciou e que exploram os embates civis entre católicos e protestantes nas ruas onde morou é uma edulcoração dessa mesma luta, que – tirando a cena de abertura – raramente tenta alcançar algum sintoma de urgência em cena. Pelo contrário, toda a ambientação do autor é procurada por uma certa diminuição da seriedade, sempre que algum conflito se aproxima. O filme não permite um olhar menos adocicado sobre tudo o que se propõe a debater, sejam os conflitos campais, seja a erosão do casamento dos pais, seja a doença do avô e seus desdobramentos, o filme parece se esconder dos problemas reais, como se o preto e branco de sua fotografia desse conta de tanta aflição ao redor.

Belfast
Rob Youngson / Focus Features

Um sem número de filmes já foi feito no esquema “o mundo visto pelos olhos de uma criança”, e os resultados têm diferentes tons, abordagens e resultados. Do Fanny e Alexander de Ingmar Bergman ao Jojo Rabbit de Taika Waititi, passando por Império do Sol de Steven Spielberg, muita coisa pode ser concluída a partir dessas experiências, e se Branagh não ridiculariza conflitos como Waititi desastrosamente faz com a Segunda Guerra Mundial, ele também parece se preocupar muito pouco com o seu entorno. A crise que eclodiu em Belfast não tem gravidade estética para além de movimentar a vida de Buddy e sua família, que eventualmente dançam pelas ruas do bairro como se a vida fosse uma eterna festa, mesmo que essas ruas estejam loteadas de olheiros querendo sua participação direta nos eventos.

Apoie o Cenas

A produção não consegue criar, acima de tudo, uma atmosfera reconhecível do ponto de vista da normalidade, ou do naturalismo, mesmo querendo beber vez por outra dessa vertente. Por isso a alcunha de fábula é a que melhor veste Belfast, um filme que joga tanto de um lado humanista – toda a relação de Buddy com os avós, que é a melhor fatia do filme – quanto para uma linhagem mais espetaculosa – a forma como o filme transforma as madrugadas pós-confronto em algo grandioso, com imagens que o cinema vendeu para o espectador assemelhadas a um campo de concentração, com seus ultra refletores, cercas de arame farpado e tochas flamejantes, em escolhas de espetacularização evidente.

Belfast
Rob Youngson / Focus Features

O filme segue nesse impasse entre ser um retrato muito íntimo de uma vida familiar que segue em plena efervescência mesmo diante da repressão e da morte, e uma tentativa vã de construir um painel da época que nunca se fortalece pela História, mas pela construção diminuta de seus personagens em cena. A visão que o filme tem da singeleza que Buddy vive, em meio a todos os impasses que sua cidade vive em paralelo a ele, também não constroi base de sustentação, mesmo com a paleta de tintas repleta de carinho. São retratos instantâneos que não revelam muita coisa além do que o filme pondera naquele exato momento, sem criar uma costura coesa para um artesanato que não se preocupa com o todo, mas só com suas fagulhas fugazes.

Mesmo cenas potencialmente instigantes, como o baile onde o Pai canta “Everlasting Love” para a Mãe, soa vazia em meio a uma montagem que não consegue criar uma progressão ao filme; vazia e particularmente falsa, deslocada e evidenciando uma escalação equivocada de dois atores que não parecem fazer parte do contexto geral, esteticamente falando. Se Ciaran Hinds e Judi Dench entregam absoluta adequação, com seu entorno e na relação que constroem entre si e estão constantemente propondo reflexão sobre o que está acontecendo com suas interpretações e suas marcas do tempo em seu rosto, Caitriona Balfe e Jamie Dornan surgem como figuras etéreas em suas belezas descomunais.

Belfast
Rob Youngson / Focus Features

Belfast, projeto tão acalentado de Branagh para contar mais do que sua própria criação enquanto artista, mas também tentando traduzir seu patriotismo, fica no meio do caminho e acaba por não privilegiar nenhuma área de leitura, além de incorrer em clichês ultrapassados como os relacionados a gangsterismos locais. É como se todas as intenções não o tivessem feito perceber como o excesso de situações conflitantes, narrativa ou imageticamente, atravancou seu resultado final, pesando o todo. Intercalando momentos bonitos e sinceros com outros bem artificiais e rasos, parecendo forçar uma grandiloquência que não pode ser simplesmente enfiada a força na produção, Branagh tem um filme na sua cabeça (e provavelmente no seu coração), e um bem diferente na tela.

Um grande momento
A Shangri-lá da vovó

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Assinar
Notificar
guest

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver comentário
Botão Voltar ao topo