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Eiffel

Sobreviver ao tempo é a questão

(Eiffel, FRA BEL, ALE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Romance
  • Direção: Martin Bourboulon
  • Roteiro: Caroline Bongrand, Thomas Bidegain, Natalie Carter
  • Elenco: Romain Duris, Emma Mackey, Pierre Deladonchamps, Armande Boulanger, Bruno Raffaelli, Alexandre Steiger, Andranic Manet, Philippe Hérisson
  • Duração: 108 minutos

Há várias formas de narrar um fato histórico. Quando o fato em questão se passa em um espaço e em um tempo de absoluta efervescência cultural, científica e política, como foi o final do século XIX, as opções são ainda maiores. Martin Bourboulon e o time de roteiristas de Eiffel optaram por retratar a construção da icônica Torre Eiffel, um das façanhas modernas mais reconhecíveis em todo o mundo, através da ótica de um romance proibido que perturba e dá sabor aos dias do renomado engenheiro Gustave Eiffel (Romain Duris).

Apesar de estar decidido a apresentar o projeto de uma rede de metrôs (“a verdadeira modernidade”) na Exposição Universal de 1889, realizada pelo governo francês com o objetivo de financiar projetos que simbolizem o desenvolvimento da engenharia do país, Eiffel subitamente muda de ideia quando reencontra um amor interrompido do passado, uma jovem de família rica chamada Adrianne Bourgès (Emma Mackey). A partir daí, o engenheiro, que também é guiado por ideais de uma sociedade mais igualitária e sem fronteiras entre classes, muda seus planos e se torna obcecado com a construção de uma torre que represente a França e atraia os olhos de todo o mundo para a cidade de Paris, que na época tinha todas as intenções de se colocar como um marco da modernidade ocidental.

Eiffel
Antonin-Menichetti/Pathé

Mas o filme para por aí. Nem o romance, nem a construção da torre e seus impactos na paisagem e cultura parisiense são explorados de maneira original, e a cada cena que se passava eu me via diante de uma estranha sensação de déjà vu, como se já tivesse assistido àquelas imagens dezenas de vezes em outros filmes. Além disso, em nenhum momento é debatida a noção de progresso e modernidade que aqueles homens (em sua maioria idosos brancos) tanto defendem. 

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Em contraste com a grandiosidade do projeto de Eiffel, o filme parece nanico, preso em uma heroicização do homem e em um romance pouco comovente, cujos momentos de tensão (que em muito dependem de uma trilha sonora genérica) soam todos superficiais demais. A atuação de Emma Mackey em inúmeros momentos me pareceu uma cópia mal impressa da performance de Keira Knightley em Orgulho e Preconceito. Várias cenas do filme parecem ter sido tiradas direto da adaptação da obra de Jane Austen, na verdade. Mas sem nada da força que ela carrega. A estrutura do Eiffel também é meio bagunçada, leva a um final apressado, que deixa de fora as partes mais interessantes da história da torre de Paris. Acho difícil que ele sobreviva ao tempo tão bem como a torre. 

Um grande momento
As (poucas) cenas com a torre

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Marcus Benjamin Figueredo

Marcus Benjamin Figueredo é corintiano, cineasta e jornalista, filho da UnB. Também é pesquisador e já atuou como montador de clipes musicais, produtor, curador e membro do júri em festivais de cinema universitário e roteiro. Gosta de sinuca.
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