Crítica | Streaming

Red – Crescer É uma Fera

Ser verdadeira com ternura

(Turning Red, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Domee Shi
  • Roteiro: Domee Shi, Julia Cho, Sarah Streicher
  • Duração: 100 minutos

“Todos temos nossas feras interiores”

Coming of age é um subgênero que provoca risos, lágrimas e uma catarse imediata – afinal todo mundo já passou pela adolescência e sabe bem o calvário que é. E com Red: Crescer É Uma Fera não só a fórmula Pixar segue funcionando muito bem, obrigada, como faz história por trás das câmeras e com ele temos uma narrativa genuinamente constituída a partir de uma perspectiva feminina. Meilin Lee é uma jovem sino-canadense de 13 anos, que diz aceitar “todos os rótulos” e não parece dar grande importância para as provações sociais constantes nessa idade mas que parece viver um dilema entre honrar sua família ou viver a sua verdade. Ecoando Divertida Mente, Coco, Luca e Encanto, Red ainda traz o background da cultura chinesa e os laços familiares, que já apareceu bastante na franquia Kung Fu Panda.

Mas se fosse um projeto de um cineasta, quase com certeza não traria uma representação tão fidedigna do que é viver como uma adolescente como Mei-Mei, especialmente porque ela é constituída também a partir das vivências das mulheres que fazem o filme, em especial da cineasta Domee Shi. Mesma diretora de Bao, curta pelo qual ganhou um Oscar em 2019, a jovem cineasta sino-canadense é apenas a segunda mulher a dirigir um longa-metragem na Pixar; o primeiro foi Valente de Brenda Chapman.

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Red - Crescer É uma Fera
Disney/Pixar

Red é terno e acolhedor, engraçado, espirituoso, mas também não se exime em trazer o dilema que envolve especialmente filha e mãe: Mei-Mei e Ming Lee (voz de Sandra Oh no original), administram o templo da família em Toronto e diariamente honram suas ancestrais como SangYe, a guardiã dos pandas vermelhos. Mas, para além de ser exemplar, a menina quer descobrir o que faz seu coração pulsar. Com Miriam, Abby e Priya forma o esquadrão nerd, que adora a boy band 4Towns (um misto de N’Sync com One Direction) e suspira por garotos. Os ritos de passagem, bem como a tecnologia – o filme se passa em 2002, quando Shi, que hoje tem 33 anos, tinha a mesma idade da protagonista de seu filme -, que traz o tamagochi que Mei-Mei carrega, a moda e outros costumes da época.

E Shi faz Red com uma equipe majoritariamente feminina em posições de lideranças no time. Inclusive o lançamento na plataforma é acompanhado de um documentário celebrando o filme iniciado em 2018, na “sala de arte vermelha” que apresenta a jornada de Red com depoimentos de Shi e outras artistas como a roteirista Julia Chow, a designer de produção Rona Liu, a produtora Lindsey Collins e a supervisora de efeitos visuais Danielle Feinberg, narrando os desafios e a importância da colaboração e união da equipe durante a pandemia.

Red - Crescer É uma Fera
Disney/Pixar

Tão atrapalhada quanto o panda Po, Mei na sua forma de panda vermelho é a alma do filme e a sequência onde começa a faturar em cima de sua imagem com ajuda das amigas, muito satisfaz quem assiste.

A jornada de mãe e filha remete a Lady Bird, quando a narrativa flui para uma direção onde cada uma vai aceitar e respeitar o caminho que traçou para si. Física e emocionalmente Mei-Mei se assemelha a Chihiro além da inspiração ter vindo das próprias características que as mulheres da equipe tinham na adolescência é um pouco da experiência de Shi e Liu que cresceram em lares chineses, onde a obrigação de manter o legado da família, ainda mais num país estrangeiro, é uma constante.

Além disso, Shi pensa nos pandas vermelhos como adolescentes preguiçosos, além das cores dele serem vermelho e branco (as mesmas da bandeira do Canadá) tornando-o então uma metáfora simbólica importante na concepção de Red, assim como a sua própria experiência pessoal e como representar a transição da infância para a adolescência que é a fase onde se busca autonomia.

Red - Crescer É uma Fera
Disney/Pixar

De forma bem circular, Red tem uma trama simples que passa pela transformação da menina em um fofíssimo – mas também peludo e fedorento – panda vermelho até o ritual de “contenção” do espírito animal, algo que sua avó, mãe e outras parentes também fizeram na adolescência e que vem no clímax do filme. Ainda que não desenvolva com tanto afinco as personagens auxiliares, focando bastante no desenvolvimento de Mei-Mei, Ming Lee tão somente, Shi e sua equipe entregam um conto sobre crescimento e amadurecimento, quando a menina descobre quem é e abraça isso, embalada por canções pop e chiclete como uma verdadeira adolescente (e 4towner).

A tal “puberdade mágica” como define a cineasta, é uma alegoria para o que significa: no caso de Mei-Mei tornar-se não só mulher como abraçar sua verdade e inclusive seus lados escuros – manifestados na fera, enquanto que a mãe, aprisionada nas próprias frustrações, passa por uma provação até compreender que a perfeição é inalcançável.

Um grande momento
Mamãe liberta a fera

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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