Crítica | Catálogo

Agente das Sombras

O velho Neeson de (quase) sempre

(Blacklight, CHI, AUS, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Mark Williams
  • Roteiro: Mark Williams, Nick May, Brandon Reavis
  • Elenco: Liam Neeson, Aidan Quinn, Emmy Raver-Lampman, Taylor John Smith, Claire van der Boom, Andrew Shaw, Zac Lemons, Tim Draxl, Georgia Flood, Gabriella Sengos
  • Duração: 104 minutos

Assim que Liam Neeson caiu nessa vala que redirecionou sua carreira para um outro lugar, parecia que teríamos um ator muito consciente e interessante nascendo daí, independente do processo qualitativo que se embrenhasse em cada obra, particularmente falando. Da trilogia Busca Implacável, ele acabou se aproximando de Jaume Collet-Serra e emergindo da autoralidade vulgar do diretor em seus melhores filmes, tais como O Passageiro e Noite sem Fim. Paralelo a isso, Neeson não se afastou por completo de um cinema, digamos, mais engajado artisticamente, vide Silêncio e As Viúvas. Os últimos títulos, no entanto, foram uma sequência de produções como Agente das Sombras, encadeadas.

Quando entramos em seu imdb, o que mais lemos nas sinopses (incluindo as vindouras) é assassino/policial/agente/matador prestes a se aposentar, e essa identificação também é achada aqui na descrição de Travis Block, um tipo especial, que age sem contrato mas com o consentimento do FBI há 30 anos, tentando salvar agentes infiltrados em situações de perigo, sejam esses perigos quais forem – podendo inclusive serem psicológicos. Block está cansado, querendo se dedicar a filha, que nunca foi sua prioridade, e a neta, que é apaixonada pelo avô e começa a apresentar sintomas de compulsão obsessiva, provavelmente herdada dele. Óbvio que ninguém quer essa aposentadoria, nem seu “chefe” – o diretor do FBI – nem a ação, que se desenrola à margem desses problemas familiares.

Essa sinopse poderia ser desenvolvida de inúmeras formas distintas, incluindo uma atenção em especial à relação do protagonista com as duas mulheres de sua vida, mas o filme resolve ir ao básico do que entendemos como sendo atualmente “um filme de Neeson”, que vai completar 70 anos em junho, e claramente não tem mais a habilidade das últimas 15 primaveras. As cenas onde é necessário que ele corra nem são realizadas, o personagem simplesmente não vai, ou o filme não se furta em esconder tais imagens, que são provavelmente de realização impossível. Talvez por isso uma das melhores cenas do filme seja uma perseguição a um caminhão de lixo roubado, onde o ator está dentro do carro o tempo todo, mas no cumprimento da ação.

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Esse seria mais um motivo para assentar a produção em algo mais particular, o que de fato é uma preocupação do filme, só que o ritmo parece claudicante o tempo todo, parecendo indeciso entre os dramas individuais e uma necessidade da produção em entregar ao público o ator que vimos nos últimos anos. Sábio era Collet-Serra, que o colocava em situações limite dentro de ambientes controlados, como o avião de Sem Escalas, ou em um imbróglio da máfia irlandesa, como em Noite sem Fim. É necessário disfarçar a falta de mobilidade de um ator que não tem a idade dos heróis da Marvel para justificar sua presença em um filme de ação, coisa que Agente das Sombras tenta fazer, mesmo não suplantando os problemas provenientes dessa situação.

O diretor da empreitada já conhecia Neeson do Legado Explosivo do ano passado, e é também um dos responsáveis por Ozark, já tendo concorrido a diversos prêmios por ela, mas tem muito mais experiência como produtor. Foi roteirista de ambos os filmes que dirigiu com Neeson, e na verdade realizou dois filmes muito mais burocráticos do que seu talento em séries já demonstrou. São filmes que exploram a imagem habitual do ator, repletos dos clichês que ele mesmo já trouxe, sem tentar se desvencilhar do óbvio que as piores produções já propuseram antes. Apesar de igualmente aborrecido, a colaboração anterior entre astro e diretor parecia até mais fresco em suas parcas ambições.

Não satisfeito de contar a história de Block, Agente das Sombras ainda quer ser politicamente correto, então desenrola uma trama paralela de amor e morte dentro de um FBI corrupto sendo investigada por uma jornalista obstinada, com alguns elementos reconhecíveis por uma plateia juvenil. A produção, que estreia nos cinemas essa semana, funciona a título do tanto que cada espectador é fã de Neeson, o que geralmente está concentrado a plateias mais maduras, ou seja, incorre até em uma contradição que suas produções precisam enfrentar; como levar esse ator a funcionar com o público de cinema, cada vez mais jovem? Independente disso, é possível imaginar que os menos exigentes se satisfaçam com o material, ainda que isso não signifique abundância de qualidade no mesmo.

Um grande momento
O confronto no jardim com o chefe

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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