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Já Fui Famoso

(I Used to be Famous, RU, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Comédia
  • Direção: Eddie Sternberg
  • Roteiro: Eddie Sternberg, Zak Klein
  • Elenco: Ed Skrein, Leo Long, Eleanor Matsuura, Eoin Macken, Lorraine Ashbourne, Neil Stuke, Kurt Egyiawan
  • Duração: 104 minutos

Poucas coisas são melhores, dentro da cinefilia, do que não ter expectativa, não saber do que se trata uma obra, e simplesmente entrar puro em uma sessão. Já Fui Famoso estreia hoje na Netflix e foi assistido, previamente, sem saber nem qual era a nacionalidade da produção. Vindo do Reino Unido, o filme é descompromissado e carinhoso, com seus personagens e com o público. Repleto de uma intenção delicada em relação ao perdão próprio, acompanhamos um personagem que já está caído em desgraça há alguns anos, e é flagrado em situação-limite, sem qualquer perspectiva de futuro a curto prazo. Apesar de suas práticas nada usuais, Vince (ou Vinnie D) é um protagonista fácil de termos empatia, porque é claramente consumido por uma culpa que nem sabemos direito de onde vem. 

Eddie Sternberg estreia na direção de longas com uma expansão de seu curta-metragem de mesmo título de 2015, onde a história era desenvolvida da mesma forma e com os protagonistas batizados da mesma forma. Mudaram os atores, mas a ideia permanece em cena, sobre a recuperação de um astro adolescente caído em desgraça, que 20 anos após o sucesso, se vê reconectado com um amor fraternal, originalmente perdido. É uma história que já vimos ser contada outras vezes, com as mesmas curvas de roteiro e flexionamentos nas mesmas direções. Até o encadeamento de cenas é esperado, não se pode prender a esse tipo de exigência para apreciar Já Fui Famoso, que tem a seu favor essa humildade de se perceber transitório, porém certeiro em seus pontos. 

Já Fui Famoso
Sanja Bucko/Netflix

Muito se deve ao caráter descontraído que Sternberg dá ao seu ambiente. Apesar dos dramas aparentes que Vinnie enfrenta – e de outros menos expostos, e alguns que imaginamos e nem estão na tela – há leveza nessa trajetória. Vimos que há extrema falta de dinheiro e de futuro, que emocionalmente o protagonista lida com uma perda dolorosa, e que a culpa o consuma por várias frentes diferentes. Mas apesar do fardo, o cara lida com suas ausências de maneira a tentar reconstruir, sempre. Além disso, o filme tem uma energia solar e é impregnado de um cinza que não é deprimente, apenas define o personagem. Sua vitalidade é recuperada ao encontrar esse rapaz autista em uma praça, trazendo significado e uma possível projeção de futuro. 

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O carisma pessoal e a química que existe entre Ed Skrein (de Justiça Além do Sistema e Midway) e o músico neuro divergente Leo Long em sua estreia como ator, é o motivador de tanta afeição que exala de Já Fui Famoso. O encontro entre esse ex-líder de uma boy band de sucesso com esse rapaz autodidata da bateria é casual, mas tomado por muita potência emocional. Vinnie perdeu o irmão no passado, então Stevie é claramente uma tábua de salvação para eximi-lo da culpa de não ter podido se dedicar a quem era especial em sua vida. Ambos se complementam então de maneira quase absoluta – um precisa do afeto que o outro tem pra ofertar, e juntos ainda podem alavancar seus sonhos mais recônditos. 

Costurando com humanidade as relações que entrecortam sua tentativa de retorno do mundo dos mortos intelectuais, Vinnie encontra Stevie, mas também reencontra a mãe, a memória do irmão, o parceiro de banda que venceu e encontra a pessoa mais importante, seu eu destruído. Parece tudo muito clichê e com a profundidade de um pires, mas a honestidade com que Já Fui Famoso utiliza sua narrativa para conectar-se com o público faz dele uma pedida na exata medida do sucesso. Tem algo de Mesmo se Nada der Certo aqui, na sua observação por uma última chance de alcançar seus objetivos e do encontro com essa chance em formato humano, mas a paisagem fraterna que permeia todo roteiro é o suficiente para emocionar (bastante) e transformar a sessão em bela pedida. 

Um grande momento

Nadeera

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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