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Kong: A Ilha da Caveira

(Kong: Skull Island, EUA/CHN, 2017)
Ação
Direção: Jordan Vogt-Roberts
Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, John Ortiz, Tian Jing, Toby Kebbell, Jason Mitchell, Shea Whigham, Thomas Mann
Roteiro: John Gatins, Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly
Duração: 118 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Kong: A Ilha da Caveira – Leia a crítica do filme

O ano é 1973. Após muitos anos nas matas do Vietnã e nuvens de napalm, o imperialismo norte-americano tenta um prêmio de consolação numa ilha escondida no pacífico – um dos únicos lugares inexplorados do mundo – oculto por tempestades elétricas.

O roteiro, de múltiplos tratamentos assinados por nomes como o do talentoso Dan Gilroy (O Abutre) e Max Borenstein (Godzilla, Godzilla: Rei dos Monstros e do inédito Godzilla vs Kong) parte do clássico plot – formação do time de corajosos, o herói que hesita e o encontro fatídico com o monstruoso gorila – para trazer alguns aspectos interessantes ao combalido gênero da ação e aventura.

Kong: a Ilha da Caveira (2017)

Ser um grupo de desajustados ou párias torna os civis mais interessantes, especialmente o personagem de Tom Hiddleston (Thor), o Capitão James Conrad das forças especiais britânicas que, numa versão inicial do roteiro de Borenstein, seria o líder da expedição de resgate, em busca do irmão cientista, perdido na ilha após tentar buscar o titan serum: um tipo de cura para todas as doenças existentes. Porém, o líder da expedição na versão que chegou aos cinemas é o cientista Bill Randa (John Goodman, de Argo) que serviu na segunda guerra e viu o gorila afundar o seu navio.

O jovem Jordan Vogt-Roberts (Os Reis do Verão) dirige com competência e coordena as tensões desse Kong: A Ilha da Caveira, ainda que claudique um pouco no ritmo durante o primeiro arco. Mas, depois que os helicópteros se aproximam da ilha cheia de perigos e seres monstruosamente míticos, o filme vai engrenando. E são bem engendradas as interações entre os personagens que integram a equipe de expedição, ao começar por Conrad – que vai atuar como rastreador –, a fotojornalista anti-guerra Mason Weaver (Brie Larson, de O Quarto de Jack) e o coronel Packard (Samuel L. Jackson, de Os Oito Odiados), um viciado em guerra levando sua tropa para a morte certa. A eles se somam cientistas da Landsat: geólogo, bióloga e o hilário Tenente Marlow (John C. Reilly, de Chicago).

Os visitantes conhecem a tribo ancestral que vive na ilha, os iwis, que tem Kong como seu protetor. A aparição dos temidos “seres da caveira” é sempre precedida de muito suspense, intercalada com grandes batalhas e confrontos.

Kong: a Ilha da Caveira (2017)

Longe de ser uma vítima das circunstâncias como a mocinha vivida em três encarnações cinematográficas por Fay Wray, Jessica Lange e Naomi Watts, a fotojornalista interpretada por Brie Larson ė uma intrépida mulher que, sim, cria um vínculo com Kong, mas diferente de tudo já visto anteriormente. Curiosamente, há uma outra mulher na expedição além de Weaver: a bióloga San-Li, que mal fala e só corre. Porém, apesar de não passar no teste de Bechdel por não obedecer as três regras básicas, Kong: A Ilha da Caveira tem na representação da fotojornalista alguns acertos como a independência de ideias; o fato de não ser concretizado um romance sugerido; ou mesmo a ausência da síndrome “Blonde on Kong”, onde a bela mocinha loira é capturada e feita cativa pelo monstro, que deseja mantê-la a salvo e só para si.

Em entrevista ao site Collider, Gilroy contou que no seu tratamento do roteiro (script inicial do filme) havia um bom background dos personagens de Conrad e Weaver que poderiam ser explorados entre o primeiro e o segundo arco do filme. Falando especialmente da personagem feminina, ele ressaltou que Weaver era realmente uma veterana de guerra, que fez fotos que mexeram muito com a própria sanidade e a tornaram cética. Por isso o choque quando dá de cara com Kong na ilha a leva a uma espécie de despertar – pena que o diretor e o estúdio não quiseram prosseguir com essa ideia… Mesmo não sendo objeto de desejo do rei da Ilha da Caveira, ela quer protegê-lo e o vínculo com ele se expressa muito pelos olhos, tanto os dela quanto os gigantes e profundos olhos cor de castanha do gorila meio humano.

Tom Hiddleston e Brie Larson em Kong: a Ilha da Caveira (2017)

Acaba que boa parte do que se vê do roteiro filmado é feito por Borenstein, além de Derek Connolly, de Jurassic World, que trabalhou na última versão do script. O filme mantém o foco no desenvolvimento dos personagens-padrão (os de Hiddleston e Larse, ainda têm pouco a fazer em termos de habilidades de atuação), mas guarda algumas oportunidades para os veteranos John Goodman, John C. Reilly e Samuel L. Jackson brilharem. O querido intérprete de Mace Windu inclusive ė o loucura em sua obsessão pelo ‘motherfucker’ deus gorila.

O grande conflito fica realmente no embate Homem vs Natureza, cristalizado na cisma entre o alucinado coronel Packard e King Kong. Kong: Ilha da Caveira ainda guarda deliciosos easter-eggs, como a citação que Randa faz sobre um monstro que destrói Washington DC – o King Ghidorah, nêmesis de Godzilla – ou a pequena homenagem a Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida no refúgio do tenente Marlow. Sem falar nas gags de Samuel L. Jackson, icônico ao soltar a frase “hold on to your butts” – em uma livre tradução seria algo como ‘segure as pontas’ – que já havia dito em, olhe só, Jurassic Park (1993). Outra é o “bitch please!” de Pulp Fiction (1994), direcionado para a personagem de Larson.

King: a Ilha da Caveira (2017)

Super produzido e bem filmado, o longa foi rodado no Havaí e no Vietnã, mesmo local que serviu como set de filmagens de Jurassic World. Na mise-en-scène Kong: A Ilha da Caveira guarda similitude com filmes de guerra passados, como Platoon e Apocalypse Now – paleta de cores em tons terrosos, filtros âmbar, tonalidades sépia e grande acentuação dos verdes e amarelos na correção de cor, além da trilha privilegiando clássicos do rock com Black Sabbath e Ziggy Stardust – e é um espetáculo visual. E Audiovisual, pois é um blockbuster completo, sendo Kong e outras criaturas criações da Industrial Light & Magic com um design que reflete uma predileção por homenagear o clássico de 1933 em detrimento de versões mais contemporâneas.

Sobre as referências,algumas delicadas e afetuosas são o momento ‘Elias’ (personagem vivido por Willem Dafoe no do já citado Platoon, de Oliver Stone) do soldado Cole, e a espécie de seres monstruosos que se inspira em outros seres míticos vistos em Princesa Mononoke de Hayao Miyazaki. Salve Gunpei Ikari!

Custou US$ 100 milhões, faturou mais de 500 e diverte com qualidade. Longe de ser impecável, talvez pela massiva intervenção no roteiro, Kong: A Ilha da Caveira – que também está na plataforma Telecine – é uma ótima pedida aventuresca para desplugar um pouco da realidade caótica durante a quarentena.

Um Grande Momento:
A chegada brusca na ilha, primeiro impacto Kong.

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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