Crítica | Streaming

Ligações Perigosas

Ligações que não envelhecem

(Les Liaisons Dangereuses, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Rachel Suissa
  • Roteiro: Slimane-Baptiste Berhoun, Rachel Suissa
  • Elenco: Paola Locatelli, Simon Rérolle, Ella Pellegrini, Héloïse Janjaud, Jin Xuan Mao, Aymeric Fougeron, Tristan Zanchi, Oscar Lesage, Alexis Michalik, Nicolas Berno.
  • Duração: 109 minutos

Só precisamos bater os olhos nesse título para pensar: “meus Deus, até quando vai a obsessão da dramaturgia mundial com Choderlos de Laclos?”. Pois bem, já tivemos versões suficientes de “Ligações Perigosas”, mas a Netflix lançou uma nova agora e, de acordo com o público que já o elegeu como sucesso, sempre há espaço para mais um. Sim, pode ser ser difícil de acreditar, depois de um sem número de versões, que vão de Stephen Frears a Roger Kumble, passando por Milos Forman, Selton Mello, Patricia Pillar, Glenn Close, John Malkovich, Reese Witherspoon, Sarah Michelle Gellar, até Jeanne Moreau, e tantos outros diretores e atores, mas a nova versão, ao contrário do que alguns colegas estão dizendo, é boa sim, vale a pena sim, e não cansa termos em visto que cada curva dramática dessa empreitada já é conhecida, todos os ramos já foram vistos e todas as possibilidades já testadas. Será?

Bom, pela primeira vez, a obra é dirigida por uma mulher, Rachel Suissa. Assim como Manuela Dias, ambas tiveram a coragem de encarar mais uma vez um texto tão clássico, porém sempre tão masculinizado, em relações e decisões estéticas. A versão nacional, de seis anos atrás, não envelheceu e provavelmente não inspirou a nova versão francesa, mas entre eles encontramos um olhar mais centralizado para a personagem que é a verdadeira mocinha da história, que sempre foi colocada em plano paralelo – Madame de Tourvel. Aqui, a personagem já imortalizada por Michelle Pfeiffer, Marjorie Estiano e Zhang Ziyi, é vivida por Paola Locatelli com vivacidade. A personagem é a protagonista, colocando a Marquesa de Merteuil, que é um dos personagens históricos de Glenn Close, bem à esquerda. O filme gira em torno da história de amor, repaginada e modernizada, entre Cèléne e Tristan, e o filme, apesar de seguir os erros e venenos da obra original, não pretende acessar as tragédias que a obra original sugere. 

O clima é o de um grupo de pessoas jovens comuns, vivendo o hoje entre instagram, perda e ganho de seguidores, stories que revelam e vídeos que servem para chantagens atuais. Ao contrário do que o filme nos faz imaginar, vivemos essa era com entendimento pouco prático; tendo sido vítima de uma recente “chantagem pictórica”, assistir a esse novo Ligações Perigosas não me parece vazio e despropositado, mas atual e urgente – e o sangue, as mortes e o clima trágico só foi substituído pelo que realmente hoje é uma moeda de troca: as visualizações e os fãs em torno de pessoas que cresceram à mercê da fama. O filme é fiel ao que é debatido por de Laclos há quase 250 anos – as impressões sociais ditam o que é importante dentro de qualquer cenário e em qualquer época. Isso faz da obra adquirir essa atemporalidade que a mantém ainda viva e premente. 

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Suissa ainda tenta (e consegue) realizar seu trabalho através de uma mão muito evidente de autora, propondo mudanças relevantes no andamento do texto e das suas soluções, além de não perder foco no que é próprio da imagem em sua produção. Existe uma cena em particular de cuidado exemplar: Cèléne e seu namorado têm uma DR sob a vigia de Tristan, mas não o ator em específico, mas sua imagem marcada em uma parede, dando um ar de constante vigilância ao que está sendo debatido ali. Isso é nada mais que a base da obra, que trata de um grupo de pessoas constantemente moldadas pela opinião alheia, em relação a si mesmo e em como manipular a imagem alheia em benefício próprio. Aqui isso é mantido, e isso por si só já coloca sua discussão em uma pauta que não morre. 

O elenco em cena é todo de muita beleza, juventude e acerto de seu lugar, na obra e em suas representações. Existem dois destaques que ficam evidentes, a começar por Héloïse Janjaud, que vive a jovem Celine no original, aqui Charlotte. A atriz é bem humorada e sagaz sem jamais jogar sua interpretação em uma caricatura, e em torno de sua presença as maiores mudanças da obra, todas muito bem vindas e adequadas ao clima que aqui importa, de voz libertária. O outro nome é o de Jin Xuan Mao, uma espécie de porta-voz da obra, aqui também representando um olhar para a diversidade sexual que não está exatamente no cerne da obra original, mas que o ator defende com garra admirável. Ambos estão em lugar imaginado pela sua diretora, de impulsionar modernidade não apenas na moldura, mas também no centro da produção, sem jamais tirar sua autenticidade. 

Ainda que pareça muito rápido na solução de seus dramas, sem dar atenção devida a todos os olhares, Ligações Perigosas e seu sucesso representam a atualidade de uma obra que se prova muito maior do que seu tempo a cada nova adaptação. Não tenho dúvida de que, em breve, estaremos assistindo a uma nova versão desse texto, esperando que mais uma vez as qualidades do texto e das intenções originais sejam mantidas. Suissa faz isso, amadurece questões e envolve o espectador, mais uma vez, em um dos quadriláteros amorosos mais famosos da História. Com qualidade quase intacta, e uma força de vontade rara de ver em uma obra que poderia ser descartável; não é. Ainda não foi dessa vez que de Laclos saiu manchado. 

Um grande momento
A dúvida de Charlotte

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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