Crítica | Cinema

Lola e Seus Irmãos

Tesouro familiar

(Lola et ses frères, FRA, 2018)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jean-Paul Rouve
  • Roteiro: David Foenkinos, Jean-Paul Rouve
  • Elenco: Ludivine Sagnier, Jean-Paul Rouve, José Garcia, Ramzy Bedia, Pauline Clement, Franc Bruneau, Philippine Leroy-Beaulieu, Gabriel Naccache, Jézabel Marques, Jenny Bellay
  • Duração: 105 minutos

Não existe uma fórmula do porquê alguns filmes acontecem, e outros simplesmente, não. Há casos como o de A Última Fronteira, filme dirigido por Sean Penn, protagonizado por Charlize Theron e Javier Bardem, exibido na competição do Festival de Cannes graças aos nomes envolvidos, exclusivamente. E há casos como o de Lola e seus Irmãos, um belo filme francês que chega no Brasil com quatro anos de atraso, sem ter sido indicado a coisa alguma em nenhum canto, e muito mais suculento do que grande parte do que vemos ser aplaudido – ou mais que isso, ser discutido. Sim, existe um apreço pelo star power, pelo sistema como um todo, por uma relevância temática, por ser “conhecido de alguém”, e assim conseguir estar nos lugares. Isso impede que pequenas preciosidades sejam descobertas, apreciadas e mais que isso, debatidas. 

O cinema aqui exposto por Jean-Paul Rouve (diretor, roteirista e um dos protagonistas) sim, é fruto da escola clássica-narrativa de realização. Isso provavelmente o fez amargar o banco de reservas de muitos festivais pelo mundo, e acabar não sendo selecionado para nenhum. A despeito das reservas com o tipo de cinema que é apregoado aqui, pouco é justificado pelo que se apresenta na produção, qualitativamente falando. O único possível entrave em seu resultado final é a observação prática do que seu autor faz dos signos que produz, eventualmente procurando exemplificar visualmente nas sequências o que seus personagens estariam sentindo – uma espécie de metaforização imagética das sensações. Não é que esteja enganado em sua abordagem, por vezes funciona, mas em alguns momentos o filme soa como explícito demais, quando sua intenção parece contradizer isso.

Lola e Seus Irmãos
Divulgação

Porque Lola e seus Irmãos é construído, em grande parte do tempo, de forma muito íntima e até profunda, a respeito das relações familiares coletivas, entre os que já estão à bordo, os que estão chegando e os que já partiram. Seus intercursos, tanto os particulares quanto os públicos, possuem uma verdade que não é comum construir, ou conceber; existe uma busca mais sensorial que palpável em torno das alianças que se formam entre pessoas que estão umas ao lado das outras, unidas pelo amor ou pelo sangue – ou ambos. São afetos de domínio público no que tem de macro, afinal o amor fraterno é impossível de explicar, muito mais fácil é senti-lo e vivê-lo, mas que o filme acessa muito prontamente nas interseções microscópicas, no que está nas entrelinhas, nos interditos e nos olhares, nos gestos e na ideia em consenso do que está por trás de cada um dos sentimentos suscetíveis a cada. 

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Nem acho que caiba um conceito de melodrama a ser atribuído aqui, porque o lugar que Rouve busca tem predileção pelo ultra-realismo, embora se cerque de algo próprio do artífice, que é a utilização frequente da elipse como mote de desenvolvimento narrativo. O roteiro de Lola e seus Irmãos (escrito em parceria com David Froenkinos) entende que o tempo, enquanto Senhor Apaziguador – ou Mantenedor – é uma ferramenta que melhor compreende os indivíduos, seus erros e seus acertos. Nesse sentido, uma elipse pode ser muito eficaz ao compreender os pontos que separam as divergências. Em um filme sobre rusgas entre pessoas que se amam, isso é um acerto crucial, ainda que lá pelas tantas, já no terceiro ato, essas mesmas elipses passem a significar uma espécie de correria dentro do que ainda teríamos a apresentar, e o filme ainda tinha muito a desenvolver, ao menos no que concerne a personagem de Ludivine Sagnier. 

Lola e Seus Irmãos
Divulgação

Com seu título, seria próprio imaginar que sua personagem seria bem mais central do que é, e ainda bem que não é. O hábil roteiro não apenas compreende a necessidade de encontrarmos o tom de cada uma das três figuras centrais (Lola, Pierre e Benoît), mas também do enraizamento de suas dores e amores, por mais superficiais que algumas se apresentem, aqui e ali. Há uma inteligência em transformar aquele sub-núcleo fraterno em um espelho do tempo, como se suas necessidades, traumas e alegrias de infância nunca tivessem cessado. Conhecemos a fundo seus universos individuais, e o que nasce a partir do encontro entre os mesmos. Com sensibilidade, entendimento e nunca ignorando o contexto artístico da criação daquela intimidade tão visível, Lola e seus Irmãos nos transporta para um microcosmos sentimental em que tudo é crível, todas as falas já foram ouvidas e muitas das lágrimas já foram secadas; é fácil se ver ali, e se isso existe é porque tudo ali está consciencioso dos detalhes que necessitam para surgir vida. 

É muito bonito ver o trabalho de Sagnier, Rouve, e também José Garcia, assim como o do resto do elenco (Ramzy Bedia, Pauline Clement, Franc Bruneau, Philippine Leroy-Beaulieu, Gabriel Naccache, todos) na troca e na cumplicidade de entender cada uma daquelas pessoas, maiores ou menores no espaço-tempo da produção. A personagem de Philippine, por exemplo, é extremamente pontual e concisa, mas sabemos tudo a respeito daquela mulher, de sua primeira à última cena. É do equilíbrio entre um elenco muito mais que talentoso, um texto que caiba na embocadura de cada um em cena, de situações que não são extraordinárias – pelo contrário, são bem ordinárias – que surge esse pequeno grande filme. Dos encontros mensais no túmulo, do esporro entre irmãos ao desemprego não-revelado, da falência que uma mulher sente ao ser tolhida em seu desejo de amor, de cada passeio em trio, de cada abraço, de cada gesto. 

Um grande momento
Muitos, mas vou citar aqui o último diálogo entre os irmãos e o senhor no cemitério – por motivos absolutamente pessoais 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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