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Que se Dane o Amor, de Novo!

Se afaste desse amor!

(F*ck de liefde 2, NED, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Appie Boudellah, Aram van de Rest
  • Roteiro: Appie Boudellah, Mustapha Boudellah, Sergej Groenhart, Shariff Nasr
  • Elenco: Bo Maerten, Geza Weisz, Yolanthe Cabau, Maurits Delchot, Edwin Jonker, Victoria Koblenko, Nienke Plas, Bettina Holwerda, Dorian Bindels, Anouk Maas
  • Duração: 92 minutos

Há três anos atrás, uma comédia holandesa explodiu nos cinemas locais. Chamava Que se Dane o Amor!, e era uma espécie de mistura entre Sex and the City e S.O.S. Mulheres ao Mar, ou seja, uma comédia com apelo especial ao público feminino, porém bastante rasa, com conotações sexuais evidentes e humor nada sofisticado. O filme é um produto evidentemente para o público do país, que deve conhecer os astros e estrelas de produções igualmente ordinárias. Tudo dentro de um aspecto de normalidade até aí. Acontece que a Netflix distribuiu então sua continuação, esse novíssimo Que se Dane o Amor, de Novo! e o público brasileiro, ainda que mais perdido que cego em tiroteio, foi lá e elegeu a produção como uma das mais vistas dos últimos dias, com audiência ascendente. Não tem nada pra boiar a quem não viu o original, até porque o filme imaginava essa situação e faz um resuminho do anterior no início, mas esse sucesso só se justifica pelo humor de banheiro que muitas vezes se aplica aqui, que o Brasil devora como um faminto.

O filme é dirigido por Appie Boudellah (ele, um dos diretores e roteiristas do primeiro) e Aram van de Rest, ou seja, dois homens falando do universo feminino. Olha… é daquelas categorias “nem sei por onde começar”. É por essas e outras que sempre teremos o que avançar, e o atraso de pensamento está muito longe de sequer se afastar de nós. Um filme de piadas muito chulas, que serão apreciadas pelo público menos exigente possível, sem qualquer cuidado na hora de construir coisa alguma, personagens ou situações, é um emaranhado de problemas do início ao fim. E além de tudo, continua uma história que obviamente não devia ter teor longe do que enxergamos aqui. “Ah, mas se é sucesso, é bom”, dirão alas menos preocupadas, ou menos sensíveis. Típica zona de comédia que já era fuleiro em atrações como o extinto Zorra Total, só faltam os bordões para o filme se apresentar mais indigente; com todo respeito a Nelson Freitas, Maria Clara Gueiros, Mariana Santos e tantos outros talentos.

Que se Dane o Amor, de Novo!
Premiere Pro

O machismo corre solto, e as cinco personagens femininas dividem protagonismo com ao menos dois homens, exemplos terríveis em qualquer tempo ou circunstância e aqui ainda parecem saídos diretamente de alguma mente que adormeceu no máximo nos anos 80. Mesmo as mulheres têm comportamentos anti-sororidade aqui e ali, e o filme coloca na boca das atrizes atrocidades, além de atitudes das mais inacreditáveis. Óbvio que o humor talvez seja o gênero mais subjetivo, cada um se diverte com coisas bem diferentes, de um indivíduo pro outro. Mas nem isso necessariamente atrai no filme, porque a graça ou é baseada em grosseria vazia, em situações nada corretas ou em comédia física, com homens sendo flagrados nus, mulheres que caem ou se embebedam gratuitamente, uma profusão de situações mal montadas e encadeadas de maneira porca. Ou seja, não funciona como comédia nem como cinema.

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A nota de rodapé de Que se Dane o Amor, de Novo! é mais curiosa e seria um único ponto positivo da produção. Todas as mulheres em cena são extremamente padronizadas, na maioria loiras, bem holandesas até, e em contrapartida os homens “alfa” do longa são negros, muitos deles, inclusive a dupla de protagonistas. Além disso, os corpos dos atores, mesmo os brancos, passam longe do quesito “sarado” – um deles inclusive tem uma barriguinha bem proeminente. Em determinado momento, uma personagem vai parar em uma zona de prostituição que é até difícil de reconhecer como tal, porque as atrizes parecem prontas para um desfile de moda, muito bem vestidas, sem qualquer sinal de exploração de raça. Ou seja, um filme tão brabo consegue ao mesmo tempo preocupar-se com questões afirmativas?

Um grande momento
Não tem

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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