Crítica | FestivalMostra SP

Mães de Verdade

Calibrando graves e agudos

(Asa ga Kuru, JAP, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Naomi Kawase
  • Roteiro: Naomi Kawase, Izumi Takahashi
  • Elenco: Miyoko Asada, Tetsu Hirahara, Arata Iura, Ren Komai, Aju Makita, Hiromi Nagasaku, Hiroko Nakajima, Gô Rijû, Reo Sato, Taketo Tanaka
  • Duração: 140 minutos

Naomi Kawase entregou um dos mais belos filmes da década passada, O Segredo das Águas, e da década retrasada, Shara, mas posteriormente ao seu longa de 2014, persegue uma vertente emocional cada vez mais óbvia e espraiada, que transformou os longas seguintes de um rumo menos óbvio e a afasta da autoralidade que sempre permeou sua carreira até então, fazendo-a cada vez mais comum, ou menos especial. Nada contra narrativas clássicas embebidas em carga dramática elevada, vide a filmografia de Hirokazu KoreEda repleta de humanidade e simplicidade, sem reservas e sem constantes de sofisticações, mas sua conterrânea japonesa parece prolongar a exploração de elementos mais uma vez em Mães de Verdade.

Desde Sabor da Vida, a conexão que ela pretende entre a tradição dos laços familiares que se ampliam até os laços de afeto para se tornarem uma coisa só vem esbarrando em fórmulas mais comumente atrelados ao Ocidente, quando a sutileza não necessariamente compõe as narrativas. No lugar do silêncio, as trilhas sonoras que explicitam os sentimentos sonoramente; no lugar da placidez das imagens, uma profusão de elementos ditos impactantes que evidenciam o que deveria ficar no ambiente do subentendido – o cinema de Kawase trocou de lado, indo de uma observação implícita sobre as relações humanas para um combo de histerias delicadas que nem sempre funcionam.

Mães de Verdade
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Ainda que a trama de Mães de Verdade pareça inspirada nas situações vividas em folhetins brasileiros (especialmente os escritos por Manoel Carlos, aquele da classe média do Leblon), o filme a desenvolve com alguma delicadeza e uma aposta no inusitado, ao “paralelar” as histórias das duas protagonistas, até chegar a incluir um terceiro elemento catalisador de eventos. Com bom ritmo e certa inteligência estrutural, o roteiro não inova nessa proposta mas ao menos apresenta um quebra-cabeça montado aos poucos e que tenta esconder sua gravura final a título de alguma certa carga de surpresa.

Apoie o Cenas

Ao cinéfilo brasileiro, já acostumado com as tintas novelescas como base de dramaturgia, as pontas são facilmente identificáveis e unidas com certa rapidez, o que também não necessariamente é um problema per se. Tudo começa a se complicar quando os elementos narrativos se unem aos elementos imagéticos, e mais uma vez Kawase explora à exaustão uma plástica exacerbada das imagens para provocar emoções que poderiam ser acessadas muito facilmente de maneira mais seca. Com a explosão de cores e de plots familiares, o filme caminha para uma zona de excessos onde os elementos se potencializam e diminuem seus resultados.

Mães de Verdade
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Com um trabalho fotográfico onde a própria Kawase tem créditos, o filme repete maneirismos visuais especialmente a Esplendor, dois filmes onde as lens flares (o nome determinado para o ato de filmar a luz do sol, que reflete na tela estourando a luminosidade) aparecem bem mais do que o necessário, quase como uma muleta imagética que, no mínimo, soa repetitivo e despropositado. Se no longa anterior o protagonista à beira da cegueira tentava justificar esse excesso de luz captado pelas imagens, aqui o recurso vai além da repetição; qual seria a função dramático desse recurso, o de “trazer luz” a uma narrativa cheia de interditos?

Como estamos diante de uma cineasta cujo talento já fora comprovado anteriormente, Mães de Verdade não é desprovido em absoluto de qualidades. Seu roteiro baseado em livro de Mizuki Tsujimura e escrito a quatro mãos por ela e Izumi Takahashi nos carrega por essa quadrilha de eventos de maneira sedutora e azeitada, ainda que sem novidades, mas sempre entretendo. Além disso, o elenco todo se entrosa e demonstra autoridade em seus lugares, com destaque para Hiromi Nagasaku, que também é cantora, e desliza talento e sensibilidade pelas curvas de sua personagem.

Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Ainda que em determinado momento Mães de Verdade pareça claramente um programa de propaganda de uma agência de adoção (ou de adoções no geral, enquanto prática), resta o talento de Naomi Kawase para tentar equilibrar em meio a tanto sentimentalismo sua autoralidade, que hoje parece afastada. Os esforços para que tenhamos algum vislumbre dele prosseguem, no entanto.

Um grande momento
A conexão entre “três mães”

[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo