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Major Grom contra o Dr. Peste

Assim falou Dostoiévski

(Mayor Grom: Chumnoy Doktor , RUS, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Oleg Trofim
  • Roteiro: Vladimir Besedin, Evgeny Eronin, Artyom Gabrelyanov, Aleksandr Kim, Roman Kotkov, Nikolay Titov, Oleg Trofim, Valentina Tronova
  • Elenco: Tikhon Zhiznevskiy, Alexander Seteykin, Lyubov Aksyonova, Sergei Goroshko, Aleksey Maklakov, Dmitriy Chebotarev, Oleg Chugunov, Mikhail Evlanov, Vitaliy Khaev
  • Duração: 136 minutos

Nada indica, nas primeiras sequências de Major Grom Contra o Dr. Peste, que tanta coisa vai acontecer na tela pelos próximos 136 minutos. E não estou falando apenas de toda ação, das reviravoltas da trama e da elaboração estética do longa russo, mas daquilo que os roteiristas — um exagerado conjunto de dezesseis mãos — conseguiram inserir em seu exemplar de filme fantástico futurista policial de super-herói. De “Os Demônios” de Dostoiévski, e outras referências do mesmo escritor clássico, aos quadrinhos adultos de Alan Moore, tem de tudo um pouco, ou um muito nessa adaptação da HQ que chegou essa semana na Netflix.

O mote é a justiça. Além da deusa Thémis que chora sangue na abertura, ela está na primeira sequência do longa, em um passado esmaecido, e também nas cores do presente, que remetem ao surgimento do protagonista Major Grom no curta de Vladimir Besedin, lá em 2017, capturando a mesma gangue de ladrões disfarçados de anime. O diretor Oleg Trofim é bom de ritmo e nesse frenesi de perseguição e justiçamento, bem pertinente aos seus personagens sem limites, cria planos divertidos e ótimos momentos.

Igor Grom, agora vivido por Tikhon Zhiznevskiy, tem um tempo muito próprio no desenvolvimento da ação. Daqueles que não para até atingir o seu objetivo, não segue o padrão dos eventos em filmes do gênero. “Pensa, pensa”. Cada um de seus confrontos valem vários. Se o protagonista brinca com o fantástico, aqueles que o cercam já têm outro registro, e são apresentados em planos longos que aproveitam para mostrar todo o ambiente — o novo cinema russo mainstream adora — e em disfarces que não exageram nos artifícios.

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O equilíbrio que Trofim consegue com os personagens não é o mesmo para todo o filme e talvez a interferência de tanta gente no roteiro tenha contribuído para isso. Parece que Vladimir Besedin, Evgeny Eronin, Artyom Gabrelyanov, Aleksandr Kim, Roman Kotkov, Nikolay Titov, Oleg Trofim e Valentina Tronova, cada um deles, tem que deixar a sua marca no filme e, embora todos os elementos tenham um sentido na trama geral, os tons são dissonantes e muitos elementos acabam perdidos entre eles.

Major Grom Contra o Dr. Peste

O próprio antagonista, o maior deles, demora um tempo a se encaixar, perdido numa trama que demora a engatar, também prejudicada pela atuação de Sergei Goroshko, mais apagada do que a dos seus companheiros de elenco. E é muito contraditório porque é justamente este personagem que permite que Major Grom Contra o Dr. Peste atravesse para o seu lado mais profundo, fazendo a ação e o enredo da investigação policial se encontrar na ficção filosófica, nas questões sociopolíticas e existenciais.

É então que o longa mergulha em um mar de referências muito mais pesadas e essa mudança de direção, por mais que seja radical, não é absurda ao quadro. Estava ali no noticiário, no julgamento, e em detalhes cênicos, como as “cavernas” do herói e do anti-herói. Sim, é preciso que se tire muita coisa do meio do caminho, mas o delírio do justiçamento, a turba ensandecida por um justiceiro e o caos estabelecido são representações magnéticas e curiosas. O problema: se há profundidade para chegar até elas, falta para falar sobre.

Major Grom Contra o Dr. Peste

Major Gram Contra o Dr. Peste é um filme interessante, que funciona muito bem enquanto ação policial de herói, com uma trama intrincada, cheia de reviravoltas e surpresas. É também um filme que tem uma vontade muito grande de deixar uma mensagem, e, de certo modo, cumpre o seu objetivo, ou pelo menos parte dele. Poderia ser menos inchado, ter mais cuidado na hora de unir tantos elementos e mais profundidade para tratar os temas que ele mesmo determina como caros. Fora isso, enquanto entretenimento, é diversão garantida.

Um grande momento
“Nem mesmo a mais horrível das pessoas”

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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