Crítica | FestivalMostra SP

Mamãe, Mamãe, Mamãe

Luto e melancolia

(Mamá, mamá, mamá, ARG, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Sol Berruezo Pichon-Riviére
  • Roteiro: Sol Berruezo Pichon-Riviére
  • Elenco: Agustina Milstein, Chloé Cherchyk, Camila Zolezzi, Matilde Creimer Chiabrando, Siumara Castillo
  • Duração: 65 minutos
  • Nota:

Para o pensamento freudiano, o luto é um desvio no fluxo normal da vida decorrente da perda de algo ou de alguém que se estima. Ao ser bruscamente jogado em um abismo profundo de dor, o enlutado procura maneiras de enfrentar o rompimento do vínculo afetivo para seguir em frente. Por mais que os estudos da morte, em sua amplitude transdisciplinar, reflitam sobre como as perdas nos afetam, cada ser é um ser e, dentro de si, carrega modulações particulares. 

É exatamente nesse momento post-mortem que Mamãe, Mamãe, Mamãe, primeiro longa-metragem da cineasta argentina Sol Berruezo Pichon-Riviére, começa a narrar a sua história, sobretudo pelo viés do luto infantil. O afogamento acidental da pequena Erín transforma o que poderia ser um divertido verão em família em dias intermináveis de tristeza e dúvida. Cleo, irmã de Erín, se vê sozinha mesmo rodeada das primas, da tia, da avó e, de alguma forma, de sua mãe que, mergulhada na depressão, fica incapaz de conversar sobre o que aconteceu.

Mamãe, Mamãe, Mamãe, filme selecionado para a 44ª MostraSP

O roteiro, também assinado por Pichon-Riviére, lança um olhar extremamente sensível e cuidadoso sobre todas essas meninas e mulheres, aproveitando ao máximo o talentoso elenco que escalou. Elas têm umas às outras e atravessam juntas esse momento de dor, cada uma à sua maneira. O tom do filme é quase fabular, com direito até a um coelho branco, mas sem a Alice. Isso não significa que é inocente, pelo contrário. Pichon-Riviére transita constantemente entre a delicadeza das imagens e a crueza do vazio que se abre naquela família – nos diálogos, na construção da mise en scène e sobretudo na fotografia que empalidece as luzes e as cores de um verão que não deu certo.

Por mais que tentem, existe sempre uma linha que elas não conseguem ultrapassar. Uma linha silenciosa, justamente onde a dor cria raiz, onde o choro se interdita e o grito implora para sair pela garganta. Cleo é uma criança e para ela falta o acolhimento que, em geral, é dado pelos genitores ou pelos adultos mais próximos que vivem suas próprias dores e também não estão prontos para falar sobre quem morreu. Como, então, ajudariam no entendimento de uma criança? Ou como Cleo ajudaria na depressão da mãe, se entre elas surge uma barreira que impede que, pelo menos, dividam suas dores? 

Mamãe, Mamãe, Mamãe, filme selecionado para a 44ª MostraSP

A menarca de Cleo aponta para uma nova fase de sua vida, em que florescer é começar a compreender o mundo para além das bonecas. Elas falam sobre a insegurança do primeiro beijo e de suas concepções de amor. O desejo do corpo encontra o desejo pelo conhecimento da vida que surge com o amadurecimento da protagonista e, por tabela, de suas primas que estão ao redor. A mais velha paquera com o rapaz contratado para interditar a piscina da casa, onde nenhuma delas poderá mais frequentar. Cleo observa, como quem espera um dia se encantar por alguém também. E ser correspondida.

A duração de Mamãe, Mamãe, Mamãe é econômica – apenas 65 minutos – e se dedica a esse universo feminino. Só vemos dois homens em cena durante todo o filme, que não possuem grandes motivações para a narrativa. O roteiro cambaleia na segunda metade após a chegada de Aylín, uma garotinha paraguaia que introduz ao grupo de garotas discussões sobre as dores e os perigos do mundo, principalmente para as mulheres. Mesmo que o recurso abra mais uma camada de pensamento, nos afasta do eixo principal. Essas camadas poderiam estar na mãe, que carrega o título do filme e que é tão potente quando (pouco) aparece, ou mesmo na figura da avó que surge em cena quase como uma entidade de cura ancestral.

Mamãe, Mamãe, Mamãe, filme selecionado para a 44ª MostraSP

É comum que jovens realizadores, como é o caso de Pichon-Riviére, que tem apenas 24 anos e levou Mamãe, Mamãe, Mamãe para os festivais de Berlim e de San Sebastian, impressionem pela envergadura de suas primeiras obras. Também acontece com cineastas mais experientes que continuam entregando trabalhos notáveis, como se a idade determinasse uma margem de erro que se pode ter no cinema. É um pensamento limitado. Por isso, fica o desejo que Pichon-Riviére, independentemente de erros e acertos neste início de carreira, mantenha a força, a delicadeza e a humanidade de suas imagens no que ainda está por vir.

Um grande momento
A conversa pelo muro

[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Diego Benevides

Diego Benevides é jornalista, pesquisador, crítico e curador de cinema. Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com pesquisa em cinema brasileiro. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e sócio-fundador da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine)
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