Crítica | FestivalMostra SP

Welcome to Chechnya

Bem-vindos a si mesmos

(Welcome to Chechnya, EUA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: David France
  • Roteiro: David France, Tyler H. Walk
  • Duração: 107 minutos
  • Nota:

David France é a voz mais relevante no tratamento do universo LGBTQIA+ na indústria cinematográfica atual, já tendo levado às telas retratos diferenciados sobre os movimentos gays em diferentes momentos da História. How to Survive a Plague foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor documentário e, como o título diz, mostra o começo da batalha contra o vírus HIV e as dificuldades em lidar com seu estigma. A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson faz uma radiografia sobre uma das mais proeminentes ativistas do movimento transgênero ao lado de Sylvia Rivera, duas mulheres marcadas pela luta, pelo preconceito e pelo racismo, inclusive da própria comunidade.

Welcome to Chechnya é tão brutal e exasperante quanto seus antecessores, porém expande o olhar de France para a contemporaneidade não-americana, o que já suscita uma disposição realocada na empatia. Se a homofobia infelizmente ainda é uma realidade comum em muitos países, sem leis que propiciem ações efetivas das autoridades, há lugares onde, nos dias de hoje, a liberdade para desenvolver sua orientação sexual é proibida, e cujo risco varia entre a prisão e a morte, passando por diversas categorias de tortura, com o aval e a anuência do Estado, que não apenas tem conhecimento dessas práticas como corrobora das mesmas.

Wellcome to Chechnya, filme selecionado para a 44ª MostraSP

A Chechênia, parte da Federação Russa, é um desses lugares onde a homofobia é quase um símbolo local, aplaudido e estimulado em rede nacional pelo seu líder Ramzan Kadyrov em cenas que variam entre o assustador, o grotesco e o degradante. O posicionamento é reconhecidamente defendido por Vladimir Putin, presidente da Rússia. Essas imagens conseguidas de material televisivo estabelecem um contraponto diabólico com a realidade dos protagonistas do filme, perseguidos, torturados, assassinados, desaparecidos e vilipendiados, uma existência de sofrimento que os faz duvidar da própria humanidade. São homens e mulheres que vivem em uma situação onde os próprios pais são aconselhados a matá-los.

France mergulha no universo clandestino de proteção a sobreviventes em uma rede de apoio, localização e migração para países simpatizantes. Ao se concentrar nas histórias e relações que nascem entre a organização que os acolhe e essas vítimas, Welcome to Chechnya ganha em material humano e emoção, em detrimento das cenas captadas pela internet de ataques, humilhações e violência física perpetrada contra pessoas que só querem ter o direito de amar indiscriminadamente; são cenas de impacto inegável, duras de assistir, mas que compõem o painel apresentado em estágios até chegar à libertação total.

Wellcome to Chechnya, filme selecionado para a 44ª MostraSP

Welcome to Chechnya se concentra em dois ativistas, Olga e David, e vai reduzindo cada vez mais o foco em Maxim Lepunov, primeira vítima de violência causada pela homofobia a conseguir fugir do país e ter coragem de denunciar tais práticas, até então incentivadas porém negadas pelas autoridades. O ímpeto de Maxim em sair da zona de proteção ao abandonar o território russo revela a obstinação de uma fatia social oprimida em todo mundo, mas que resiste aos horrores perpetrados contra ela. Além dos ganhos sociais, o personagem ainda revela ao espectador do filme a qualidade do dispositivo que justifica seu mérito cinematográfico.

Como se tratam de pessoas caçadas em seu país, o filme opta por esconder digitalmente a identidade desses jovens com “máscaras” que recriam outro rosto por cima do original. Ao revelar seu caso, o filme retira essa prótese digital em uma cena que, indiscutivelmente, é seu grande acerto, e parece girar em torno desse momento. Até por isso, fica claro como sua temática poucas vezes consegue ultrapassar os limites do que o cinema poderia propor, que realçasse suas histórias e transformasse a produção em um material que fosse além da denúncia.

Wellcome to Chechnya, filme selecionado para a 44ª MostraSP

Como trabalha nesse registro temático sobreposto à investigação de linguagem, em Welcome to Chechnya até vemos David France conseguir criar um dispositivo que dê um brilho, ainda que sutil, a sua obra de relevância inquestionável. É pouco para elevar o material cinematograficamente, mas suas intenções e seu apuro em relação ao que o norteia, transformam sua obra em material conjunto cada vez mais rico para estudarmos o movimento gay em todas as suas vertentes, e as possibilidades de evoluirmos enquanto seres humanos.

Um grande momento
Enfim, Maxim.

[44ª Mostra de São Paulo]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo