- Gênero: Comédia, Policial
- Direção: John Patton Ford
- Roteiro: John Patton Ford
- Elenco: Glen Powell, Margaret Qualley, Jessica Henwick, Nell Williams, Bill Camp, Ed Harris, Topher Grace, Zach Woods, Grady Wilson.
- Duração: 100 minutos
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Até quando Hollywood vai utilizar Glen Powell a partir do monumento de carisma que ele naturalmente erige ao seu redor? Pouco exigido e sempre reconfigurado para um espaço de pouca relevância, o ator que foi notado em Top Gun: Maverick e explodiu em Todos Menos Você ainda tem pouco poder de barganha. Por isso, ainda mantém o quadro de escolhas que consegue fazer dentro de um campo de reconhecimento de respeito. No novo Manual Prático da Vingança Lucrativa, ele volta a acessar o charme visto em Assassino por Acaso para viver um homem que precisa lutar pelo que é seu de direito. Como trata-se de um protagonista cheio de contradições e com um grau de ambiguidade elevado para o cinema estadunidense, alguém como ele é crucial para manter a narrativa ainda assimilável.
A situação se complexifica quando Powell parece já em tão pouco tempo dentro do campo dos astros parece confortável demais em cena. Não há novidade no que ele faz em Manual Prático da Vingança Lucrativa, ainda que ele exiba o talento e o charme que tem demonstrado de maneira comum em suas aparições. Temos um rosto novo, mas que Hollywood parece insistir em um único escaninho possível, e com isso os recursos do ator de O Sobrevivente não são renovados para lados de outra especificidade. Somos seduzidos pela narrativa, estamos conectados com o que é apresentado, mas a própria escalação de Powell aqui soa preguiçosa, sem respingar no próprio ator.
A trama é simpática: uma mulher deserdada de sua família bilionária após uma gravidez na juventude tem seu filho sozinha. Quando ela morre com o menino ainda criança, ela pede perdão a ele por não ter lhe dado a vida que lhe era destinada. A partir desse momento, o menino cresce com o intuito de chegar no lugar proibido para ele. Mas eis que o hoje adulto resolve dar uma ajuda ao destino, apressando a linha sucessória da herança com acidentes que ele mesmo provoca. Manual Prático da Vingança Lucrativa mostra, então, a formação de um matador que se propõe a exterminar uma família de parasitas, seus tios e primos. O desafio da produção é fazer o espectador criar simpatia por um projeto de serial killer, já que Beckett começa a sentir prazer no que faz, se valendo de uma invencibilidade que pode encerrar-se a qualquer momento.
Como se trata de uma comédia (ainda que de gosto bastante duvidoso, não pelo humor não funcionar, mas pelo desconfortável dos atos), existe uma perambulação por essa tentativa de manter o jogo claro. Então, por mais que assassinatos sejam cometidos – e o primeiro deles é de uma concisão e rapidez que assusta mais que o protagonista, também o espectador – a gravidade dos eventos é relativizada. Sim, pessoas morrem, mas as maneiras são absurdas, não vemos o “jogo” até o fim, e os cortes sempre se encerram da maneira forma, no mesmo mausoléu. Um único momento mais triste não é causado por Beckett, e nessa passagem, podemos acessar os sentimentos do protagonista, mas fica a evidência que sem esse tom, Manual Prático da Vingança Lucrativa não funcionaria.
Isso nos leva ao recorte de filme que estamos vendo, esperto e sagaz. Aliado à presença de Powell, esperto e sagaz igualmente, estamos diante de um mesmo relevo de personagem e produção que vem sendo oferecido ao ator. Se isso não prejudica a fruição do projeto, carrega para dentro de Manual Prático da Vingança Lucrativa um senso de repetição que não era a intenção pretendida com toda certeza. Então, por mais que seja muito gostoso acompanhar cada jogada do filme, o todo nos coloca de maneira confortável em cena, e a empolgação se dilui porque não estamos diante de um campo novo. E percebemos então que essa é uma ideia que não é muito mais relevante do que os últimos anos tem se mostrado, dentro da carreira do ator e dentro do cinema de maneira geral.
Tem um ponto porém que o filme escorrega feio, e quase determina sua falência: personagem e interpretação de Margaret Qualley (de A Substância). Para os dois escopos onde é concebida, na natureza original e na forma amplificada que sua reorganização alcança, toda a abordagem é tão histérica e fora do compasso, que o filme inteiro passa a estar com um peso extra. Manual Prático da Vingança Lucrativa não se absteve da diversão, mas para cada entrada em cena de Qualley, tudo ao seu redor esturrica de cansaço, e preguiça. Ao fim, seu desfecho bem longe da metodologia comum estadunidense em torno dos malefícios da ganância e do dinheiro acaba por tornar a experiência mais uma vez gostosa, onde o excesso do querer acaba por representar nada além do que é, de verdade, seus prós e contras.
Um grande momento
O encontro com o avô


