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Meu Ano em Nova York

A chefe da secretária

(My Salinger Year, CAN, IRL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Philippe Falardeau
  • Roteiro: Philippe Falardeau
  • Elenco: Margaret Qualley, Sigourney Weaver, Douglas Booth, Seána Kerslake, Brían F. O'Byrne, Colm Feore
  • Duração: 101 minutos

Especificamente pra mim, Meu Ano em Nova York soa ainda mais nostálgico do que já se pretende. Espécie de versão mais séria de Uma Secretária de Futuro (um mini-marco da minha infância), com a mesma Sigourney Weaver interpretando uma versão mais dócil de sua célebre personagem, o filme do canadense Philippe Falardeau abriu o Festival de Berlim ano passado e agora aporta na Netflix como um passatempo um pouco mais comprometido do que geralmente os produtos de lá o são, nessa seara. Muito atacado pela posição que ocupou em um dos maiores festivais do mundo, não há mesmo justificativa para que algo tão inofensivo tenha tido o destaque que um filme de abertura tem, mas enquanto produção agridoce para o streaming, o filme cumpre um papel até diferenciado.

É como se Woody Allen pegasse a premissa do filme oitentista de Mike Nichols e colocasse seu olhar sobre ele; não espere, porém, a sofisticação do nova iorquino. Com uma parcial narração em off da protagonista e ambientado no universo das agências literárias, o filme trata J. D. Salinger, o recluso autor de O Apanhador no Campo de Centeio com humanidade e até uma certa inocência, revelando nada além de sua fama pregressa, mas usando-o como farol para sua protagonista, uma aspirante a escritora transformada em assistente de uma toda poderosa agente (ou como ela mesma reflete, secretária mesmo). Aos fãs do escritor, o filme deve ter inclusive um plus de magia e interesse que pode ser frustrado, dependendo do tamanho da expectativa – lembrem-se, é um mero coming of age profissional, e não uma investigação profunda sobre a personalidade de seu personagem.

Mesmo Joanna, a protagonista vivida por Margaret Qualley (de Era uma Vez em Hollywood), não é super povoada de questões existenciais. Uma jovem recém chegada a Nova York em 1995, Joanna acompanha a chegada dos novos tempos tecnológicos sem compreender muito onde quer estar – a não ser ali. Em uma idade de adaptação, a protagonista parece pular de cabide em cabide sem saber exatamente sua estadia física, o que claramente também motivará seu emocional. Sua relação com uma amiga, com o novo “namorido”, com a chefe cheia de idiossincrasias e com o autor, à distância, é o que move o projeto, dono de uma simplicidade que não o deixa longe de uma agradável e esquecível “sessão da tarde”.

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Meu Ano em Nova York
© micro_scope

O cineasta indicado ao Oscar por O Que traz Boas Novas é um operário do singelo, e aqui realiza algo muito prosaico e tendo de um quadro padrão de cinematografia, sem pretensões estéticas. Sua intenção era contar de maneira assertiva sua história, sem grandes arroubos de personalidade. Com isso, seu filme parece um produto formatado para o maior público possível, sem riscos ou coragem; é um material sem contra indicações, apenas o suficiente para que possamos acessar algo superior. Quando comparado a obra com a qual Nichols foi finalista da Academia em 1988 e que sempre foi considerado descartável, percebemos como Meu Ano em Nova York nem ao menos pretende ser um manifesto feminista e que naqueles anos era tão necessário.

O que sobra e salta ao olhos na produção é a presença e o talento intocado de Sigourney Weaver. Atriz das mais subestimadas, praticamente sem espaço, foi revelada pela tenente Ellen Ripley da série Alien e tudo que fez foi expandir suas capacidades, se provar cada vez mais capaz, jogar em lados trágicos ou cômicos com igual qualidade e desenvoltura, pra se tornar com frequência maior do que seus projetos, como aqui. Seu talento inquestionável não apenas eleva sua personagem como também o projeto inteiro, que teria vida ainda mais dificultada sem ela. Com certeza percebendo como poderia cair no lugar onde foi premiada anteriormente quando foi a chefe de Melanie Griffith, inteligente que é aqui mudou tudo – tom, olhar, trabalho corporal, intencionalidade. Com muita perspicácia, Weaver nos faz perceber aqui como sua ausência é sentida e precisa ser combatida.

O elenco, como um todo, transporta o longa para além das expectativas e nos faz comprar o filme do jeito que ele é, sem cobrar maior autoralidade de um projeto que nasceu no lugar errado mas que pode alcançar agora o público certo, aquele que não cobre do projeto algo que ele nem pretende dar. Com sua colcha de referências bem estabelecida e recheado de admiração por grandes mestres, Meu Ano em Nova York cumpre seu papel de entreter sem aborrecer, ainda que o preço seja o do breve esquecimento. A não ser por Sigourney.

Um grande momento
“Também sinto”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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