Crítica | Streaming

MILF

(MILF, FRA/BEL, 2018)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: Axelle Laffont
  • Roteiro: Jérôme L'hotsky, Stéphane Kramer, Axelle Laffont, Jean-François Halin, Alain Layrac, Jonathan Cohen, David Lanzmann, Lilou Fogli
  • Elenco: Marie-Josée Croze, Virginie Ledoyen, Axelle Laffont, Waël Sersoub, Matthias Dandois, Victor Meutelet, Rémi Pedevilla, Florence Thomassin
  • Duração: 101 minutos
  • Nota:

A expressão MILF foi cunhada na língua inglesa e designa “mom I’d like to fuck”, ou em português suave, “mãe com quem eu transaria”. O caráter dúbio da mesma, que fica no meio termo entre elevar a autoestima de mulheres com mais de 40 anos e encarcera-las num protótipo machista e reducionista, é atravessado pelo longa homônimo MILF, estreia da Netflix dirigido por uma das protagonistas, Axelle Laffont, que debuta com a função de enxertar charme a uma narrativa escrita por DEZESSEIS MÃOS!; sim, além da própria Laffont outras 7 pessoas mexeram no texto, que tenta dar conta de muitas questões sob muitas perspectivas, justificando o exército que o concebeu.

Mas o título foi lançado em excelente momento, para ele mesmo. Após os recentes italianos Os Infiéis e O Sol de Riccione naufragarem tentando emular charme a estereótipos ou construir uma diversão descompromissada a beira-mar, o francês não faz nenhuma revolução na comédia contemporânea, mas ao menos tenta contemporizar sobre escolhas femininas, seu olhar para o sexo oposto diante de preconceitos arcaicos, desenha três figuras com uma certa bidimensionalidade, dá voz aos desejos de mulheres pós-balzaquianas, e guarda uma pitada de olhar à juventude masculina, também apontando diversidade de caráter e motivações.

MILF (2020), filme da Netflix

É lógico que não há profundidade nesse registro, MILF não se propõe a mergulhar com exatas chaves no sexteto principal do longa – três amigas num misto de luto e férias no litoral francês, e os três rapazes que se interessam por sua maturidade diversa. O filme é uma produção leve, que vende a naturalidade espacial que exatamente faltava a O Sol de Riccione, transformando a produção em um programa que se assiste com muito prazer, seja pela ambientação convidativa, seja pela beleza inegável dos seus atores, assim como o talento de todo o elenco, que cuida para que o divertimento nunca perca o gás. Porém não se pode fingir que essa comédia praiana está livre de seus problemas.

Apesar de ser muito direto ao ponto, sem maiores elocubrações existenciais a respeito de seus personagens, eles são verdadeiramente bem defendidos, mas nada disso tem muita serventia se suas ações giram em torno de lugares comuns esperados, ainda que desenvolvidos com delicadeza. Cada um dos seis protagonistas caminha por lugares esperados pelo espectador mais inteirado do gênero; se o filme ainda assim ganha alguma cumplicidade, é porque seus intérpretes acreditam em cada frase dita e o fazem com muita propriedade. O filme segue nesse esquema “um passo pra frente e outro pra trás”, sendo um passatempo agradável e nunca indo além disto, embora pudesse dado o talento de seu corpo de baile.

MILF (2020), filme da Netflix

Não destacar nenhum dos seis é, ao mesmo tempo, louvar a todos; Laffont, Virginie Ledoyen (de A Praia), Marie-Josée Croze (prêmio em Cannes por As Invasões Bárbaras) e os meninos Waël Sersoub, Matthias Dandois e Victor Meutelet têm todos muita química conjunta, funcionam muito bem enquanto grupo e em seus pares românticos e nos levam a torcer por cada um deles, juntos ou separados. A ponto de dois personagens que negativizam esse encontro rapidamente serem pintados com tintas vilanescas – sem exagero, com ênfase. A existência desses dois personagens não ajuda o filme a ganhar sutileza, mas ajuda na compactação daquele grupo tão simpático.

MILF obviamente que não passa no teste Bechdel – seu trio de protagonistas praticamente só falam sobre o sexo oposto, suas relações com o mesmo, a prisão invisível onde vivem com seus respectivos passados e a possibilidade de um futuro literalmente rejuvenescido, mas cavando para além da superfície podemos perceber que essa visão de pessoas mais velhas em relação às mais jovens e vice versa não são prejudiciais somente nas questões amorosas. Quem de nós nunca julgou terceiros pela idade, para mais ou para menos, sem perceber o quanto estava cego pelo estereótipo? Sem adensar esse debate, o filme larga aqui esse olhar, terminando com inúmeras possibilidades em aberto para seus personagens – decisão das mais acertadas para apontar que o futuro não nos cabe.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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