Crítica | Festival

Zona Crítica

O gigante de bom coração

(منطقه بحرانی, IRÃ, ALE, 2023)
Nota  
  • Gênero: Drama, Policial
  • Direção: Ali Ahmadzadeh
  • Roteiro: Ali Ahmadzadeh
  • Elenco: Amir Pousti, Shirin Abedinirad, Maryam Sadeghiyan, Alireza Keymanesh, Saghar Saharkhiz, Alireza Rastjou
  • Duração: 96 minutos

Vencedor do mais recente Festival de Locarno, Zona Crítica gerou alguma surpresa com esse resultado. Ao assistir o filme, sua porção política salta na direção do espectador e essa compreensão não só precisa ser acessada, como também entender o quanto o Irã é um país cujo passo como esse representa algo bem diferente do que em outros lugares. Ainda que esse desenvolvimento fosse sim ser taxado qualitativamente em qualquer outra região, não podemos ser ingênuos de achar que a realidade tratada aqui não é usual. E a partir da ampliação desse olhar, ainda que situações comuns a cineastas iranianos como “ameaça de prisão” e “banimento pelo governo local” sejam naturais e não possam ser classificados em uma análise fílmica, é sim parâmetro para uma conversação interessante. 

Esse é o quarto longa do diretor Ali Ahmadzadeh, e seu primeiro a ganhar alcance mundial. Sendo de um país fora de um circuito naturalizado de exportação, podemos dizer que ele está sendo devidamente apresentado ao mundo agora, ainda que o Irã gere constante interesse com suas obras e cineastas constantemente renovados, principalmente no Brasil, do qual têm público fiel. A impressão que temos é a melhor, e a culpa disso não é o prêmio, e sim o caminho inverso – a premiação, nesse caso específico, reflete a qualidade do júri, embora isso não seja determinante (ainda lembramos de Triângulo da Tristeza, né?). Ser apresentado à potência da forma com que esse cineasta diz o que têm a dizer, é que pode mexer com nossa percepção desse canto do mundo, e do que ele pode ainda exportar de relevante. 

O filme chacoalha nossas conclusões sobre o quê vem de onde, ao triangular em um recorte pouco novo e até bastante utilizado no momento, uma espécie de ‘road movie’ nervoso de uma noite/dia só, os elementos que são extraídos desse olhar. Temos um traficante de pequeno porte, do tipo ‘faça tudo você mesmo’, andando pelas ruas da cidade em uma madrugada e nos apresentando seu ‘modus operandi’ muito particular. Assim, o protagonista de Zona Crítica deixa suas marcas na produção, mostrando seu trabalho, sua realidade pouco usual até, mas que nunca deixa de revelar um tanto de personalidade através de mínimas atitudes, olhares, gestos e escolhas verbais. É um filme sem medo de expor suas entrelinhas da maneira mais explícita possível, e o faz sem que isso denote demérito dessa afirmação. 

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O caminho para entregar o olhar desse homem (e também o de Ahmadzadeh) é ambíguo, como uma rua de mão dupla. Existe uma imagem definida por um conceito vago, e que o filme trata de retirar cada estereótipo em seus pontos de contato com o outro. Amir é uma figura que vende brutalidade, pelo visual que carrega, pela maneira pouco afeita à produção que apresenta, pela forma com que sua casa é organizada, até pelo seu cachorro. Zona Crítica o apresenta, nos preparamos para o que esse homem aparenta ser, para então sermos constantemente reapresentados ao que ele realmente é. Temos então a aparência e a realidade brigando, além de um ponto de inflexão que leve o filme para dois lados distintos, o da probabilidade da violência e o da certeza do afeto. 

Lidando com a madrugada marginal que intercala suas visitas e encontros a pessoas de muitas personalidades diferentes, em situações muitas vezes inesperadas e também com possibilidades de tensão, Zona Crítica não prepara previamente o espectador para o próximo encontro e o que irá surgir dele. Ouvindo a voz feminina de seu GPS pela noite afora, Amir expressa uma ferocidade típica do que seria esperado do seu visual quando confrontado, mas a verdade de sua personalidade só pode ser descrita em duas cenas. Em uma delas, uma mulher declara “tenho fé em você, e depois em Deus”; em outra, uma fila de pessoas em situação de rua faz fila para receber “doações” de Amir, tendo a mão beijada por todos após a atitude, como um santo. Duas cenas que poderiam resumir o personagem mas não o fazem, porque existe ainda muito mais por trás da casca. 

Transformar então um andarilho da noite, um fornecedor de drogas das mais variadas, em uma espécie de salvador de última hora, psicólogo eventual, amigo insuspeito, sem tomar dele sua individualidade, sua paixão, sua vida e seus propósitos, não é uma tarefa simples. Nem pouco ousada, muito menos vinda da região do mundo de onde veio, em que sim, Ahmadzadeh está ameaçado de prisão. Zona Crítica, no entanto, em nossa parte do mundo cinéfilo, demonstra um carinho impossível de valorar de um ser humano por outros, especialmente na situação onde ali aqueles seres se encontram. Acreditar que o melhor possa acontecer já não é mais possível, e ainda assim no final do dia, você recebe um abraço carinhoso de um homem abrutalhado, que enxugue as suas lágrimas e te chame de querido. Que Amir encontre também, e o mais rápido possível, alguém que faça o mesmo por ele. 

[47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Um grande momento

A fila

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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