Crítica | CinemaDestaque

Moonage Daydream

Hipnose de um gênio

(Moonage Daydream, EUA, ALE, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Brett Morgen
  • Roteiro: Brett Morgen
  • Duração: 135 minutos

Era um homem em constante ebulição. Ou evolução? Ou revolução? Conhecer David Bowie definitivamente é nunca conhecer David Bowie. Ele mesmo declara não ter muito bem definidos suas identidades e limites, seus pontos de equilíbrio, se é que existiam. Acompanhar o monumento Moonage Daydream, filme de Brett Morgen que estreia hoje, é ter a certeza de que o próprio artista tanto queria se auto descobrir quanto só queria viver, tudo ao mesmo tempo agora… e posteriormente, uma coisa de cada vez. Pra quê ter respostas quando muito mais gostoso é fazer as perguntas, incontáveis delas? E esse talvez seja um dos méritos do título, não tentar capturar Bowie, mas sentir sua verdade, seja ela musical ou narrativa. 

Morgen, que tem em seu currículo pérolas do documentário como Kurt Cobain: Montage of Heck e Jane, concebe sua festa-rock-tributo com base na montagem, do qual é o responsável. Construído exclusivamente de material pré-existente, imagens do mítico criador de Ziggy Stardust durante seu relâmpago na Terra, Moonage Daydream é como uma instalação fílmica, porém sem abdicar do envolvimento emocional acoplado ao sensorial, que geralmente é descartado de experiências imersivas. Aqui o preço a se pagar para mergulhar em mais de 2 horas de David Bowie é cobrado no ato: a atividade estroboscópica do filme me deu crise de ansiedade na primeira meia hora. Quando o gênio enfim se congraça com o público, percebi então que meu estado atual era de júbilo. 

Não é apenas o talento de seu diretor, ao conectar perfeitamente as referências diretas do universo de Bowie – e suas inspirações e admirações, indo de Oscar Wilde até Ingmar Bergman, de Nosferatu aos Beatles – que fazem da produção um evento de proporções inesquecíveis. É a magia da figura que verdadeiramente não deveria ser desse universo, e que há quase sete anos voltou para sua galáxia, depois de longo passeio entre nós. A marca deixada entre quem viveu sua contemporaneidade é indelével, porque Bowie não apenas fazia música de invejável qualidade, mas porque era uma força alimentadora de reflexão desde sempre, porque sua figura influencia o mundo até hoje, porque em 1975 o homem já respondia perguntas que ainda hoje são feitas. 

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As investigações gráficas e narrativas feitas por Morgen contemplam não apenas o artista, como trazem reverberações a partir do homem, que o próprio disseca. Não são as letras, porque elas já são de conhecimento generalizado, mas o lugar que Bowie ocupava no cenário artístico, conclamando vozes fora do esquadro para ter seu lugar. Um olhar desconstruído para a hipocrisia, que não discorria com deboche ou arrogância mesmo diante da estupidez humana, mas essencialmente alguém que estava disposto de verdade a revelar o que sabia de si, muito ou pouco. Esse é um dos fascínios do ser Bowie e da pesquisa do autor do filme, que destrincha o homem por trás de um mito que não cessa após sua partida, pelo contrário. 

As colocações de Bowie são tão potentes quanto a sua música, e Moonage Daydream trás para o centro do palco seu pensamento também. A cada nova camada, o filme enriquece seu personagem, mas principalmente se torna ainda mais relevante. Do artista indecifrável do surgimento até a explosão mundial com o disco Let’s Dance, o que vemos não é um avanço qualitativo, mas a expansão de um universo em constante desconstrução. É nesse momento que sai uma das frases mais importantes do filme, dita por um crítico: “ele parece ter se tornado algo muito antiquado, ou seja, um superstar”. Sem nunca ter procurado por isso ou aquilo através de sua música, David Bowie não era mais nichado por uma cena alternativa, e sim um astro de proporções globais. Tudo isso aconteceu na tradução de suas verdades absolutas, mesmo que elas durassem apenas aquele momento. 

Bowie perseguiu o tempo durante sua vida e carreira, e não é à toa que o filme abre com o clássico diálogo proferido por Rutger Hauer no final de Blade Runner. O artista tinha pressa em compactar o tempo de maneira a configurar o máximo de possibilidades para onde seus tentáculos pudessem alcançar. O tempo foi feliz a Bowie, não porque o fez amadurecer, mas porque proporcionou a ele essa capacidade inesgotável de reinvenção na velocidade da luz – e de uma existência terrena. Mesmo quando desejou ser neutro, o homem que também foi ator (alguém esquece Labirinto ou Fome de Viver?) não conseguiu deixar de absorver os costumes dos muitos lugares que morou, ou do seu próprio tempo. Bowie foi quem precisou ser para conservar uma voz autêntica e autoral, mas acima de tudo, foi definitivamente quem quis ser: todos possíveis.

Com um trabalho de montagem dos mais brilhantes e conceituais do cinema recente, seria preciso algumas sessões de Moonage Daydream para que toda sua atmosfera fosse apreendida. De ritmo alucinante, mas com a tranquilidade em lidar com os tempos de cada segmento, sua paleta de cores que se simplifica e a textura de suas imagens que se adequam ao que o roteiro sugere, o trabalho de Morgen é como uma carta de apresentação a um extraordinário mundo, cheio de sons, cores e tato desconcertantes. Emocionante na dialética pura que alguém tão virtuoso poderia conceber, uma experiência dos sentidos é o que temos na nossa frente, onde a profusão de elementos tende a nos inebriar, encantar e intrigar, em ordens absolutamente disparatadas, na intenção de provocar encantaria coletiva. Trabalho feito. 

Um grande momento

“são só sapatos, seu bobinho”

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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