Crítica | Streaming

Garotos de Bem

Monstros juvenis

(La Scuola Cattolica, ITA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Stefano Mordini
  • Roteiro: Stefano Mordini, Massimo Gaudioso, Luca Infascelli
  • Elenco: Emanuele Maria Di Stefano, Giulio Fochetti, Gianluca Guidi, Nicolò Galasso, Benedetta Porcarolli, Leonardo Ragazzini, Alessandro Cantalini, Guido Quaglione, Riccardo Scamarcio, Jasmine Trinca, Luca Vergoni, Giulio Tropea, Federica Torchetti, Angelica Elli, Giulio Pranno
  • Duração: 105 minutos

Parece que esse é o mês da masculinidade tóxica, da violência contra a mulher, do horror deliberado contra o corpo feminino no cinema. Triste que esse tema esteja presente em tantas produções, tais como Men, Não se Preocupe, Querida, Paixão Sufocante e que ainda possamos ter outros exemplares de como o homem é um ser humano que deu muito errado, no embrião. Essa estreia de hoje da Netflix, Garotos de Bem é mais um exemplar de como essa afirmação é verdadeira, e de como deveria ser vergonhoso para qualquer um estar nesse gênero. Cometendo guerras, decidindo o que fazer sobre a vontade alheia, o homem deu muito errado e essa produção italiana mostra que isso está na gênese masculina. 

Stefano Mordini (de Testemunha Invisível) é um diretor que vêm da linguagem documental e emprega aqui um tanto de sua experiência, nessa descrição de atos de horror contínuos perpetrado por um grupo de adolescentes. A forma como estabelece a narração como elo de ligação entre os eventos, a forma como lida com o mosaico de personagens, o caráter observacional aplicado à narrativa, mostram como sua leitura distanciada fazem bem ao material aplicado. Ao contrário dos três títulos citados, o distanciamento narrativo faz bem ao resultado final, embora não deixe de nos provocar constante asco por grande parte do que é perpetrado em cena. 

Garotos de Bem
Ufficio Stampa

Aqui, no entanto, há uma certeza de bússola regendo esses meninos-monstros, que desde o início tem um apontamento sobre a gravidade do que cometem. Há o horror físico e psicológico, há o questionamento a respeito de estarmos mais uma vez expostos a material dilacerante sobre a figura da mulher (e, também, grande parte da sociedade), e isso é o pior elemento desses filmes. Mas também há um pêndulo real sobre as cabeças que perpetram esses fins, que inexiste nos outros exemplos. Por mais que a adolescência seja mais uma vez mostrada como um período de condescendência paterna e sentimento de invencibilidade, Garotos de Bem constrói imagens que constantemente os condena pelo que fazem. 

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É um comportamento de manada, mas que reflete no indivíduo, e os argumentos usados pelo filme são os mesmos que essas pessoas usam na vida real. “ah, me faltaram exemplos”, “ah, não fui educado severamente”, “ah, me disseram que cometer o mal era tão comum quanto cometer o bem”, e outras camadas de pavor que são proferidas por aí. Não há humor em Garotos de Bem, quase não há respiro, mas o fato de estarem à espreita conspirando ou testemunhando, de serem flagrados em atos ilícitos e pagarem algum preço por isso, mostra que existia uma moral que eles negaram. Excesso de repressão, ausência de comunicação, e tantos outros motivos existem para que se cometam crimes, e eles são elencados.

Mordini filma tudo com interesse mordaz tanto pela ação quanto pela reação, provando que é difícil, mas não é impossível reger uma narrativa como essa com distanciamento, porém respeitoso ao que é filmado. Não se trata de um objeto de encantamento, mas de estudo sobre como a sociedade adoeceu muito rapidamente mediante polos extremos de farturas e desaparecimentos. Não conseguimos identificar um comportamento que seja que não se configure como um alerta social, quase doutrinatário, para o bem e para o mal. Se faz necessário ser dessa forma, a título de que tal produção seja exibida entre pessoas dessa idade e tentar salvar uma ou duas almas, já configura como vitória posterior. 

Garotos de Bem
Ufficio Stampa

É curioso que o filme jogue, por muitas vezes, com uma incerteza diante do desconhecido. Existem plots em Garotos de Bem onde uma situação-limite nos leva a crer na natureza de um desfecho, que acaba nos enganando, positivamente. Isso é uma base para o estado de pânico eterno no qual mulheres e minorias de toda ordem passam todos os dias – quando seremos violentados novamente? Porque acontecerá, só não sabemos quando. O diretor utiliza esse jogo em intenção da identificação generalizada diante do medo de um perigo que nunca cessa. Expandindo essa colocação para uma escalação feliz de elenco, onde muitos dos meninos escolhidos se parecem, e as famílias são tantas no roteiro, que o espectador também se confunde nas identidades. Tá tudo bem, afinal são todos horrorosos mesmo, em essência. 

O trabalho de direção, pois, acaba por justificar as falhas do roteiro em maquiar situações, ou pouco desenvolver alguns personagens. Esse é o habitual problema de adaptar outras obras, corre-se o risco de parecer insuficiente. O que Mordini faz é conferir urgência e uma espécie testemunhal do horror diário em Garotos de Bem. Com sua câmera que busca capturar nuances de olhar, da lente ou do ator, ele revela o mal por trás de uma geração que parece não parar de nascer. É muito mais sutil e eficaz do que é feito por Alex Garland em seu filme, ainda que não consiga evoluir para outros patamares de discussão. O que é visto aqui mapeia um processo ancestral e nos coloca a par das suas consequências – é bem mais do que o cinema tem oferecido, em suas últimas incursões desastradas a respeito do tema. 

Um grande momento

Corrigindo o erro do irmão 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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