Crítica | Streaming

Na Sinfonia do Coração

Os homens não pedem paz

(Gönül, TUR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Soner Caner
  • Roteiro: Soner Caner
  • Elenco: Erkan Kolçak Köstendil, Hazar Ergüçlü, Büllent Emin Yarar, Ali Seçkiner Alici, Selim Bayraktar, Şevval Sam, Asiye Dinçsoy, Nazmi Kirik, Ferit Kaya
  • Duração: 95 minutos

na nik nik na nik na na
na nik nik na nik na na
na ni na ni na nik na na
na ni na ni na nik na na…

É essa melodia, cantada de maneira mais cadenciada ou mais acelerada, à capela por vários momentos, é o que une os protagonistas de Na Sinfonia do Coração, título brega e esdrúxulo para um dos mais surpreendentes títulos que a Netflix irá lançar… esse ano? Esqueçam a tradição recente turca do streaming, que têm feito o sucesso de narrativas extremamente populares, como Milagre na Cela 7 ou Táticas do Amor. Desde o plano-sequência que abre o filme sabemos que tem algo substancialmente diferente ali, mas os caminhos que são seguidos não nos preparam para as camadas de estupefação que encontraremos a cada nova curva. Nada é simples de ser abordado aqui.

Existe uma textura terrosa para o jogo imagético aqui, que é necessária para que essa terrosidade seja entrecortada para o nascimento das flores que a narrativa planta. É um universo de pobreza árida que o filme invade, mas nunca desprovida de um maravilhamento e uma poesia que estão na gênese de um povo que nunca se curvou ao horror submetido por guerras e massacres – como presença passiva ou ativa, vide a relação deles com a Romênia. Tudo isso é parte integrante do caráter histórico que o filme abraça, graças a presença dos chamados “domis” em cena, que são uma espécie de músicos-poetas de canções tradicionais, de origem cigana, e que o filme apresenta como uma trupe que canta e anima casamentos tradicionais.

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A história de amor de nasce entre Piroz e Sümbül parece destinada a ceder fala ao personagem masculino, mas o roteiro de Soner Caner é enviesado a dar conta de tantas ramificações diferentes, que a trajetória de Piroz acaba se tornando apenas uma delas. Sem diminuir seu impacto, o filme arregimenta um olhar a uma cultura que o streaming não estaria interessado em vender até então, preferindo explorar melodramas lacrimosos ou comédias que escorregaram no machismo. Cada um em seu lugar, Na Sinfonia do Coração (ô título horrível…), embora não converse exatamente com tal cineasta, orgulha a terra de Nuri Bilge Ceylan, que não vinha sendo representada na potência que seu cinema exibe.

Como na História, os tempos de pureza e poesia são entrecortados pela violência, pelo estupor bestial. O que se apresenta então como uma celebração de um amor quase angelical ganha contornos de crescente trágica, ao passa que avança. E sempre pelo não-discernimento do homem, que avança truculento obedecendo dogmas sem sentido. E é graças a esse caminho sutilmente destrutivo que a força de Sümbül vai se desenhando com força preponderante frente à tentativas de silenciamento, essas sim universais, infelizmente. O feminicídio é um tema muito premente hoje, tanto no cinema quanto nas páginas policiais, e a produção costura o que pareceria ser um apêndice com a precisão dos rumos de seu roteiro.

Sümbül, em seu vilarejo, é uma mulher tida como desequilibrada por recusar casamentos, e pode ser disposta como bem querem seus pretendentes e pais. O filme também a vende dessa forma, com uma inocência doidivanas típica das almas libertárias. Essa é a superfície utilizada para sua apresentação, mas a moça vai se mostrando absolutamente sã conforme encontra mais e mais propósitos – primeiro, na delicadeza do amor verdadeiro, seguinte para o enfrentamento de sua família, para terminar liderando um povo. A imagem de Hazar Ergüçlü (de A Árvore dos Frutos Selvagens, de Ceylan) sendo sobreposta na última sequência aos protagonistas masculinos, inclusive apagando seu par romântico, seu canto finalmente reverberando pelas montanhas, é o lugar para onde esse filme quer levar sua força.

A protagonista e seu partner, Erkan Kolçak Köstendil, são intérpretes irretocáveis, astros de primeira grandeza em seu país pelas participações em séries e novelas. Em um elenco uniforme em seu elevado rigor, é a presença de Büllent Emin Yarar um dos motivos mais evidentes para o sucesso de Na Sinfonia…, não, chega de escrever esse título ruim. Não apenas pela sua interpretação magnética, mas porque seu personagem se torna uma síntese sobre os temas da produção. A busca pela independência emocional e afetiva, a crença na poesia e na imaginação frente ao saber, a postura firme e impávida diante do horror inevitável, a assertividade de quem tem ciência do próprio destino. Essas características estão todas polvilhadas em um filme dirigido com um brilho raro dentro do que a Turquia tem apresentado a Netflix, um título que desbrava com rara beleza o embate entre a fúria de tradições arcaicas e a força de uma liberdade só válida quando conjunta.

Um grande momento
O encontro com Dilo

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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