Crítica | Streaming

Darlings

Violência doméstica não é relativizável

(Darlings, IND, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jasmeet K Reen
  • Roteiro: Parveez Sheikh, Jasmeet K Reen, Vijay Maurya
  • Elenco: Alia Bhatt, Vijay Varma, Shefali Shah, Roshan Mathew, Vikram, Rajesh Sharma, Santosh Juvekar, Vijay Maurya
  • Duração: 133 minutos

Se não fosse a Netflix, seria inacreditável que a distribuidora/streaming que colocou no mesmo mês títulos do calibre de Veloz, Furioso & Apaixonado, Na Sinfonia do Coração e Carter está também estreando Darlings, produção indiana que está conseguindo uma visibilidade que não merece. Mesmo terminando com uma cartela sobre “violência contra a mulher é crime”, há muito mais desserviço na forma como as coisas são arranjadas em cena do que responsabilidade. Tem certos temas onde não cabem leveza, e o feminicídio deveria ser um assunto tratado com seriedade uniforme, sem trocadilhos ou pormenores. Não serei leviano e tratarei de acreditar que as intenções do projeto eram as melhores, dentro das possibilidades de uma sociedade tão radical quanto a indiana, mas o ditado não nega: de boas intenções… 

Escrito e dirigido por uma mulher, Jasmeet K. Reen, o filme não nega suas origens, e talvez até tenha orgulho delas, mas empregá-las na sua totalidade nessa narrativa, me parece um mal sinal. A única coisa que é deixada de fora de Darlings são os tradicionais segmentos musicais, ainda que o filme utilize música cantada para embalar várias cenas. Todo o resto está em cena, desde o humor (!!!) bem fora do hora por aqui, passando pelo melodrama rasgado, as câmeras lentas em momentos de tensão, e a soma de desses elementos na mesma cena, às vezes. Muitas vezes tudo isso junto rende momentos memoráveis em tela e já fez a fama de muitos títulos; a Netflix trouxe para o público esse ano RRR, o maior sucesso indiano do ano, cujos excessos só tornam a experiência ainda mais arrebatadora. Nunca é o caso aqui. 

Na tentativa de tridimensionalizar todas as situações (eu juro que vou tentar pegar leve com a diretora), ela relativiza a própria violência. Em um filme de mais de 2 horas de duração, deixar arrependimentos e esclarecimentos para momentos pontuais e isolados, me parece uma decisão mais que arriscada; equivocada. O filme acompanha um casal, Badru e Hamza, desde antes do casamento, onde tudo eram flores, evidentemente; o filme então pula três anos no tempo e já na primeira cena, os rostos entregam que o hábito da crueldade não está começando ali. São cenas de tortura psicológica ou física – quando não ambas – que nos fazem pensar nos motivos pelo qual uma jovem, mesmo na Índia, ainda justificar o sangue que perde diariamente com argumentos de 100 anos atrás. 

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Isso fica mais grave quando a mãe da personagem, absolutamente contraditória, tece que apenas os jovens indianos se rebelam contra isso hoje, não ela. Mas gente, a filha dela tem menos de 30 anos e age de maneira muito mais conservadora que ela mesma, que vive aconselhando, com a maior tranquilidade, que o certo a fazer é matar o homem. Dito assim, parece uma saída aconselhável, mediante o que citei acima, mas Darlings joga um clima de constante humor à essas cenas, e sentimos muitas vezes que tudo é uma brincadeira entre as duas. Falta coerência não apenas às personagens – e não apenas a elas, mas a todos em cena – mas principalmente ao filme, que está perdido entre muitos quereres. O maior problema é que a primeira metade da produção é uma grande passada de pano em um boy que ultrapassa todos os direitos de ser lixo; é o próprio esgoto sem tratamento. 

Ainda que saibamos que muitas mulheres, e não apenas indianas, ainda se calam diante da violência doméstica, as peças do quebra-cabeça não se encaixam, porque a mesma mulher que salva o marido da cadeia decide matá-lo quando ele faz muito menos, e depois decide não matá-lo mais, e mais um monte de mudanças de atitude à exaustão. Não consigo imaginar como tanta gente consegue ter paciência com Badru, mas tudo se justifica no conjunto porque não tem ninguém com muita razão em cena. São um grupo de pessoas absolutamente equivocadas nas relações, todas construídas por um roteiro que não compreendeu que a Índia deve mudar, ou que ao menos a arte deve pensar em mudança. A arte deveria, ao menos ela, tirar de um sistema covarde o seu direito de existir, e não corroborar por tanto tempo sem reflexão uma ideia de abnegação arcaica. 

Darlings termina com uma mudança para sua protagonista, tudo conseguido com a ajuda de quem? Bom, acertou quem apostou em “destino”. Se até em Quem Quer ser um Milionário?, essa ideia de abrir mão do livre arbítrio em prol de algo maior parece cafona, em filme que deveria discutir o progresso desse pensamento, é quase criminoso. A nota só não será a mínima porque, de alguma forma ou de outra, o filme promove um debate sobre o estado das coisas em cabeças ainda muito atrasadas, seja pelo motivo que for. Afinal, como diz a mãe da protagonista, o twitter tá aí mostrando que o mundo globalizado é uma realidade. Daqueles casos onde assistimos a produção para anotar tudo que está errado em ação, para então pensar em fazer tudo diferente dali – inclusive enquanto cinema. 

Um grande momento
A mãe revela seu passado

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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