Cinema em linhas

O Beijo da Mulher Aranha e as ditaduras sul-americanas

A variedade de abordagens sobre os regimes totalitários do passado no cinema

Transformar O Beijo da Mulher Aranha em musical não é um gesto neutro nem um capricho de gênero. No novo filme dirigido por Bill Condon, a história que Hector Babenco havia inscrito no cinema latino-americano como um dos retratos mais íntimos e dolorosos da repressão reaparece atravessada pela música, pela fantasia e pelo corpo em performance. Adaptando o musical de John Kander e Fred Ebb, que por sua vez vinha do romance de Manuel Puig, o filme desloca a memória da ditadura argentina para outro campo sensorial, onde o desejo e a imaginação passam a dividir o espaço com a violência institucional.

É esse caminho, teatro para cinema, que reorganiza o centro da coisa. O filme coloca na mesma cela dois homens, Valentín Arregui (Diego Luna), preso político, e Luis Molina (Tonatiuh), homossexual e por isso indecente, que transforma o confinamento em tela mental ao narrar um filme estrelado por eles e a diva Ingrid Luna (Jennifer Lopez). A ditadura militar argentina permanece como atmosfera de controle e ameaça, com a intimidade virando campo de disputa, e a imaginação funcionando como mecanismo de fuga e, ao mesmo tempo, como forma de encarar o real.

Esse movimento fica ainda mais interessante quando se coloca o longa de Condon em diálogo com o cinema sul-americano recente, que tem voltado aos regimes totalitários com uma espécie de obsessão formal, como se a memória exigisse uma nova linguagem para continuar respirando. O tema não sumiu do continente, ele se transformou em narrativa de gênero, em família, em burocracia, em dinheiro, em fantasmagoria, em comédia macabra, em thriller, e em tribunal. A política aparece como textura e mecanismo.

Em Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, a ditadura militar brasileira entra pela casa e pelo cotidiano de Eunice Paiva depois da prisão e do desaparecimento de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva. O trauma vira rotina, a violência vira ausência, a memória vira estilo de vida. É um filme de intimidade atravessada, e essa chave doméstica tem sido uma das formas mais fortes de falar do autoritarismo hoje.

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, falando também de memória, coloca o professor universitário Marcelo no Recife de 1977, no miolo da ditadura, numa narrativa que mistura coletividade, perseguição, paranoia, cidade vigiada e uma pulsação de cinema de gênero, com a própria experiência do cinema funcionando como abrigo e como arma. A ditadura aparece como ecossistema, com vigilância, corrupção, medo e a máquina funcionando por baixo das relações.

Na Argentina, o cinema também tem trabalhado esse passado com estratégias diferentes entre si. Argentina, 1985, de Santiago Mitre, encara a ditadura pelo tribunal, reencenando o julgamento contra os responsáveis pelo regime. Sem explicitar os eventos, a forma jurídica tenta dar nome ao horror, com toda a tensão ética de transformar trauma coletivo em processo.

Azor, de Andreas Fontana, encosta no mesmo período pela via do capital e da cumplicidade social, seguindo um banqueiro suíço no começo dos anos 1980, numa atmosfera de códigos, silêncios e desaparecimentos que não são ditos em voz alta. A violência aparece naquilo que o dinheiro permite ignorar.

No Chile, o cinema recente tem ido de um registro mais contido a um deboche brutal, e isso é muito sintomático. 1976, de Manuela Martelli, escolhe um olhar lateral, uma mulher burguesa que vai sendo sugada pela engrenagem do regime, com a ditadura se infiltrando nas frestas do cotidiano. Aranha, de Andrés Wood, volta ao começo dos anos 1970 e à atuação da extrema direita chilena, com Inés, Justo e Gerardo dentro do grupo Pátria e Liberdade, tratando política como crime; desejo e lealdade em combustão.

E aí vem O Conde, de Pablo Larraín, que decide transformar Pinochet num vampiro de 250 anos, uma sátira de horror e comédia sombria que usa monstruosidade literal como comentário histórico. É uma escolha formal que fala muito do nosso tempo, quando o real parece tão absurdo que pede metáfora grotesca para ser encarado.

Prisão nos Andes, de Felipe Carmona, fecha esse arco seguindo outro caminho, o da punição encenada como privilégio, acompanhando torturadores da ditadura de Pinochet numa prisão luxuosa e no medo de perder regalias. Ali a memória vira estrutura de classe, e a impunidade vira arquitetura.

O que essa constelação toda revela é que a ditadura, no cinema sul-americano de agora, tem chegado menos como lição de história e mais como fantasma que muda de roupa. Às vezes é casa e família, às vezes é thriller urbano, às vezes é vampiro e às vezes tem forma legal ou financeira. No caso do novo O Beijo da Mulher Aranha, a forma é o musical, com a fantasia de cinema clássico funcionando como abrigo dentro do cárcere, e essa ideia conversa muito bem com o presente. A imaginação aparece como território político, o desejo vira linguagem, e a música vira uma maneira de dizer o indizível sem reduzir a experiência..

O filme de Hector Babenco, com William Hurt, Raul Julia e Sônia Braga, já tinha colocado essa história no centro de um cinema que encarava repressão e identidade de frente. Condon, ao puxar a narrativa para outra lógica, propõe uma nova pergunta, bem atual: o que a arte precisa inventar para continuar falando de uma violência que, mesmo quando termina, segue reorganizando o modo como a gente ama, teme, fantasia e lembra.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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