Crítica | Outras metragensDestaque

O efeito Martha Mitchell

Ou o terror de Richard Nixon, o Xereta

(The Martha Mitchell Effect, EUA, 2022)
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Anne Alvergue, Debra McClutchy
  • Roteiro: Anne Alvergue
  • Duração: 40 minutos

Se há um período da história estadunidense que me fascina é a era Nixon. Não apenas em função de sua relevância geopolítica, pela forma como o republicano tocou a guerra do Vietnã ou pelo escândalo de Watergate, mas sim porque toda vez que me deparo com um filme ou texto que aborda a folclórica figura de Richard Nixon, me espanta a magnitude de sua influência, que se sustenta até os dias de hoje. Não são poucos os governantes no mundo contemporâneo que carregam traços da personalidade e da forma de fazer política do ex-presidente republicano.

Eleito em 1968 em cima do discurso da lei e da ordem e tido como o precursor da fracassada guerra às drogas, Nixon adotou uma postura de governo completamente alérgica à imprensa. Também é conhecido por seu narcisismo paranoico e desprezo pelo jogo democrático (vide o escândalo das escutas de Watergate). Qualquer semelhança com governos atuais não é mera coincidência: o homem realmente fez escola. As continuidades são muitas. E essa é a palavra chave em O Efeito Martha Mitchell, filme que estreia nesta sexta-feira (17/6) na Netflix. Continuidade.

Por ter um carisma impar e ser casada com John Mitchell, procurador-geral do governo e um dos homens de confiança do presidente, Martha Mitchell tinha acesso direto a ele, e, em determinado ponto, ficou famosa no noticiário político pelas ligações que fazia para o gabinete presidencial para “influenciar” o republicano. Acontece que Nixon, como diz uma das fontes no documentário, “não gostava de mulheres que falavam alto”. E é aí que o problema citado acima, o da continuidade, começa a se evidenciar e tomar proporções maiores que as figuras de Nixon ou da própria Martha.

Apoie o Cenas

Quer dizer, a coisa muda de patamar quando pouco a pouco O Efeito Martha Mitchell te leva a perceber que pouca coisa mudou, e, o pouco que mudou, é extremamente recente. E nisso, o emprego das imagens de arquivo é insubstituível. Só elas têm o poder de contrastar com tamanha precisão realidades históricas tão distantes mas ainda muito semelhantes.

Basta acompanhar qualquer campanha eleitoral no planeta pra ver que o número de candidaturas femininas continua baixíssimo, e consequentemente, o papel das mulheres na política acaba por ser o da “primeira-dama caridosa”, o famoso ‘bela, recatada e do lar’, alcunhas usadas pela revista Veja para se referir à ex-primeira dama Marcela Temer. E isso é uma coisa que independe de espectro político, é um buraco bem mais embaixo.

Ao meu ver, não há melhor recorte (pelo menos não em um filme de 40 minutos) para observar esse momento da política americana e como, em muitos sentidos, ele se perpetua. E que alívio ver um documentário de imagem de arquivo no catálogo da Netflix. Se a ideia é mudar o presente, a única resposta está na compreensão do passado.

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Marcus Benjamin Figueredo

Marcus Benjamin Figueredo é corintiano, cineasta e jornalista, filho da UnB. Também é pesquisador e já atuou como montador de clipes musicais, produtor, curador e membro do júri em festivais de cinema universitário e roteiro. Gosta de sinuca.
Botão Voltar ao topo