Crítica | Cinema

O Labirinto

Massa pesada

( L'uomo del labirinto, ITA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Horror
  • Direção: Donato Carrisi
  • Roteiro: Donato Carrisi
  • Elenco: Dustin Hoffman, Toni Servillo, Valentina Bellè, Vinicio Marchioni, Katsiaryna Shulha, Orlando Cinque, Filippo Dini, Sergio Grossini, Carla Cassola, Luis Gnecco
  • Duração: 130 minutos

Nos últimos dias, o cinema e o streaming foram assolados por produções cujo apreço pelo artificialismo deram tons diferenciados em suas propostas. Enfileirando texturas, cores e tensões em cena, essa propensão a histeria das imagens aqui em O Labirinto se integra ao seu universo de maneira mais absorvente que nas outras tentativas, porque se trata de uma experiência de revitalização do noir para os dias de hoje, para o cinema contemporâneo, sem perder uma vocação para o exagero estético, aqui muito bem dosado. O tratamento parcimonioso dado ao tom de suas imagens converge com uma tentativa de se fazer perceber, como um aluno que não para de levantar a mão durante a aula.

A esse aluno, podemos dizer que seu alter ego seria Donato Carrisi. O cineasta italiano não é exatamente jovem, ainda é um inexperiente em seu segundo longa e talvez até um pouco ingênuo em sua vontade de fabulação. Cheio de possibilidades e preparado para abraçar a todas possíveis, Carrisi escolhe mais uma vez o thriller para exercitar sua autoralidade, mas diferente de sua estreia (A Garota na Névoa), seu novo filme exala provocação em suas camadas cheias de vivacidade. É um projeto de risco para um cineasta recém reconhecido, cadeira na qual ele mergulha sem medo de parecer afobado.

O Labirinto

Há uma perceptível vontade de tornar esse O Labirinto uma produção de suspense dessas marcantes, daqueles que falaremos por anos a fio e se consagrará tanto por seu dinamismo quanto por um dado narrativo marcante, geralmente atrelado ao seu plot twist. O filme persegue congêneres como O Silêncio dos Inocentes e Seven com tanta avidez que parece esquecer de cuidar da própria narrativa, da própria personalidade; isso não o faz soar como um produto em que a ausência de alma se sobressaia, porque há qualidades evidentes de construção imagética e de proposição cinematográfica em cena, que lutam para não empalidecer diante das suas claras intenções.

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Com um desenho de produção que passeia entre um pesadelo infantil e um cabaré hardcore, o filme enche os olhos nas suas escolhas estéticas e gráficas. Com um pitada do que faz Jean-Pierre Jeunet (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) em tela, Carrisi parece se divertir em montar seu quebra-cabeça de cenários abstratos, ambientes apavorantes e CGI à mostra. Como adentrar um cenário mais elaborado e surreal a cada nova cena promovesse um entendimento de seu universo rebuscado, o diretor não cansa de desconstruir a percepção do espectador, que precisa configurar uma trama que se alonga e se complexifica demais, montando um conjunto rocambolesco em demasia.

Com uma duração extensa para muito além do devido, O Labirinto é uma adaptação de um livro também escrito por Carrisi. Ele parece muito apegado ao material para descartar qualquer informação extra, então sua versão cinematográfica não tem a edição necessária para que sua fruição não pese de tantos elementos. Aqui, muita ideia extra não agrega uma função narrativa aparente, dando ao filme uma aparência exaustiva; os roteiristas não tiveram a coragem para eliminar o material sobressalente de sua estrutura básica, dando mais gordura a um projeto que já é muito excessivo.

As presenças dos multitalentosos e multipremiados Toni Servillo (de A Grande Beleza) e Dustin Hoffman (Kramer vs Kramer) não são apenas uma cereja em um bolo ultra confeitado; eles contribuem com seu talento infindável para contar essa história intrincada demais, mas cujos talentos valorizam cada cena e cada diálogo. Carrisi tem muito a agradecer a ambos, porque o tal plot twist que ele tem certeza que será tão marcante, é adivinhado por um cinéfilo atento em 5 minutos; O que não permite o naufrágio de seu filme é essa dupla, e o fato de que essa virada final é como uma das bolinhas de uma árvore de Natal repleta delas.

Um grande momento
Na estrada, incêndios ao longe

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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