Crítica | Cinema

Jogo do Poder

Por debaixo dos panos

(Adults in the Room, FRA, GRE, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Costa-Gavras
  • Roteiro: Costa-Gavras
  • Elenco: Christos Loulis, Alexandros Bourdoumis, Ulrich Tukur, Daan Schuurmans, Christios Stergioglou, Dimitris Tarlow, Alexandros Logothetis, Josiane Pinson, Cornelius Obonya, Aurelien Recoing, Francesco Acquaroli
  • Duração: 124 minutos

Se há algo que Costa-Gavras quer comunicar ao final de Jogo do Poder, seu último filme que finalmente estreia nos cinemas, é a de que não podemos confiar. Na política ou na vida real, as coisas não são exatamente tão claras quanto poderíamos imaginar, mesmo que tenhamos garantias do contrário. Não há qualquer garantia na palavra dita, ou mesmo na escrita, quando por trás dela existem pessoas. Ok, não há nenhuma novidade em não poder confiar em políticos, eles mentem e enganam… o que o veterano diretor grego nos mostra, no fundo, é que o povo — a quem os políticos servem, afinal — não é o único a ser ludibriado na máquina governamental.

A crise econômica grega poderia render um excelente documentário dirigido pelo próprio vencedor do Oscar por Z, então porque o cineasta decidiu rodar um retrato ficcional dos quase 6 meses em que Yanis Varoufakis foi ministro das finanças no olho do furacão da tentativa de renegociação das dívidas do país? O título em português, embora genérico que batizou tantos outros filmes, dá a sugestão de suas intenções, ao adentrar cada salão, reunião e decisão perpetrada nesses rápido período, e como as relações de poder não se diferem muito quando se alcançam o alto da pirâmide, seja esquerda ou direita. Concessões e estratagemas precisam ser feitos, o mistério é como equilibrar isso com verdade, caráter e sem invalidar o discurso que o levou a esse topo.

Jogo do Poder
© Jessica Forde / KG Productions

Apesar de ameaçar utilizar as manhas de Adam Mckay em A Grande Aposta, na verdade tudo que é dito em ‘Jogo de Poder’ é necessário, precisa ser ouvido e eventualmente uma pessoa leiga (assumo: eu, por exemplo) precisará de uns goles d’água para assimilar o tanto de negociata e “politiquês” apresentado, mas seu autor tem consciência de que Yanis é mais do que um protagonista, e sim um porta-voz de um tempo ainda não-compreendido dentro e fora das esferas majoritárias — não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos? Então, com todas as doses de boa vontade, intencionalidade positiva e genuína vontade de fazer o bem ao povo, no caminho haverá um (ou dois, ou três, ou no caso do filme, cinquenta e sete) momento em que as raposas felpudas vencerão; às utopias, caberão perseverar.

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Aos 88 anos, o mais renomado diretor grego da História estava há 7 anos sem filmar, e reaparece agora com o vigor sempre visto, porém a favor de um universo onde a palavra (verdadeira ou não) é o centro da narrativa, ou seja, o ritmo é ditado por embates verbais e discussões cujo calor vai depender do envolvimento do espectador àquela narrativa, que a experiência do homem por trás de Desaparecido e O Corte dinamiza de maneira implacável. Não é fácil se envolver com o hermetismo de trâmites políticos intrincados como os vistos aqui, principalmente quando não há clareza na barreira do que seria denominado no jargão cinematográfico do que seriam “heróis” ou “vilões”; Costa-Gavras prova, através de seu filme e de seu balé final, que isso é muito mais relativo e subjetivo do que imaginamos.

Jogo do Poder
© Jessica Forde / KG Productions

A missão do cinema em um roteiro tão distante da realidade da maior parte dos espectadores é nos convidar a uma posição em cada mesa, a observar cada embate com olhos ainda mais fincados em cada lance, é entender que o cineasta está contando a história recente de seu país e que é esse povo não-ouvido em cena a virtual vítima de cada um dos personagens de Jogo do Poder – é um defeito debater o futuro de um povo sem dar voz ao mesmo? Esse é o preço que se paga por um objeto de câmara, um filme que pode soar como antiquado, que já foi filmado tantas vezes, e que aqui tenta iluminar quem não pode se manifestar nas decisões políticas, sem conseguir sempre.

Costa-Gavras não tem medo do artificial, como forma de lidar com as reais estratégias de controle em cena. Para isso, povoa sua narrativa de elementos grotescos em situações que deveriam se pretender naturais – o passeio de moto do protagonista com um quadro de paisagem atrás, a apuração dos votos do referendo com um CGI exagerado a separar a ficção do documento, os efeitos especiais dos dados sobre a crise grega que saltam dos painéis e giram em pleno ar. O diretor em sua larga experiência sabe que aquele grupo de personagens, extraídos de absurdos contos monárquicos shakespearianos, precisa ser rasgado pela artificialidade para se perceba também humano, aos olhos do espectador.

Jogo do Poder
© Jessica Forde / KG Productions

Em determinado momento, o título original do filme (Adults in the Room) é pronunciado, numa alusão ao que estava faltando nas reuniões do Eurogrupo – adultos na sala. Mas, em análise mais aprofundada, essa expressão corre na direção de Yanis, nosso protagonista, e recém empossado de suas funções ali, ou seja, muito jovem para engolir todas os sapos necessários e em ter o maior jogo de cintura possível. É ele, Yanis, quem sai vitorioso a longo prazo, no sentido de não ter corrompido seus ideais a troco da manutenção do poder, ainda que os poderosos chefões tenham permanecido dando as ordens no plano geral.

Um grande momento
A coletiva alemã

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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