Crítica | Festival

See You Then

Sob a pele

(See You Then, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Mari Walker
  • Roteiro: Kristen Uno, Mari Walker
  • Elenco: Pooya Mohseni, Lynn Chen, Danny Jacobs, Nican Robinson
  • Duração: 74 minutos

Outro dia Soraya Lopes estava falando sobre a série brasileira Manhãs de Setembro, as mudanças da vida e a imutabilidade de pequenas grandes coisas. Não foi de imediato, mas à medida que o diálogo de See You Then foi se desenrolando essa conversa foi voltando à cabeça. Por falar nisso, este é um daqueles filmes baseados exclusivamente na palavra. As duas atrizes dominam os espaços e o tempo com suas divagações sobre a vida, o passado e o presente.

Elas são Kris, vivida por Pooya Mohseni, e Naomi, Lynn Chen, e estão se encontrando pela primeira vez depois de muitos anos sem se ver, após a ruptura dramática de um relacionamento, quando Kris simplesmente resolveu desaparecer. O fez para se encontrar, para estar em um corpo adequado ao seu e é sua transição o primeiro grande assunto nesta longa conversa noite adentro. E do estranhamento e distanciamento inicial, o assunto acaba nos dias atuais de Naomi, em suas frustrações, naquilo que gostaria de fazer mas não tem mais oportunidade.

Se Mohseni e Chen têm cacife para segurar See You Then, a diretora Mari Walker talvez se complique um pouco com a disposição da trilha sonora e a duração de algumas cenas. Embora os diálogos sejam bons, é preciso muita precisão no ritmo para que um longa exclusivamente baseado na fala não se torne enfadonho. Ela acerta muitas vezes, inclusive sendo melhor no jogo entre as duas atrizes do que quando tenta inserir novos personagens casuais e soe falso demais.

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O roteiro, escrito pela própria diretora e por Kristen Uno, se encontra bem nas várias questões sobre a transição e redesignação de gênero, baseando-se na experiência de vida de Walker, e transpira feminilidade. Fala de maternidade, de machismo, da vida em uma sociedade patriarcal e do sentimento de não pertencimento. Algumas falas são íntimas, mesmo que identificáveis, pertencem apenas àquelas duas pessoas. Outras, são universais, não se restringem a elas.

Há mágoa, busca tardia por perdão, desconfiança, raiva, culpa e uma série de sentimentos ligados a uma relação mal resolvida entre as mulheres, mas há também uma óbvia conexão que mostra a força daquilo que tiveram. Como um imã, a noite demonstra a dificuldade que ambas têm de se separar por mais que tenham vontade de fazê-lo e é preciso que algo muito radical aconteça para isso: a fuga de Kris no passado, que não se vê, mas justifica o filme, e a verdade de Naomi, que encerra See You Then.

Walker leva o espectador curioso até o final, seguindo pela noite sem saber como ela terminará. E é interessante que o faça em uma instalação repleta de panos, com luzes coloridas, onde os corpos se separam e não necessariamente precisam se enxergar para que as palavras sejam proferidas cara a cara. O teor da conversa chega como uma facilidade, pelo menos naquele momento, mas expõe muito mais do que aparenta na superfície. Revela algo que sempre foi e que talvez nunca vá ser diferente. É a não ruptura. É a manutenção. É o ser o mesmo.

Um grande momento
O final

[2021 Bentonville Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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