Crítica | FestivalDestaque

A Pequena Guerreira

Pela identidade

(Beans, CAN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Tracey Deer
  • Roteiro: Tracey Deer, Meredith Vuchnich
  • Elenco: Kiawentiio, Violah Beauvais, Rainbow Dickerson, Joel Montgrand, Paulina Alexis, D'Pharaoh Woon-A-Tai, Jay Cardinal Villeneuve, Taio Gélinas, Caroline Gelinas
  • Duração: 92 minutos

A segregação dos povos nativos é uma realidade da América colonizada, com passado de perseguição e presente de preconceito. A demarcação das terras também é uma questão em todos os países e se conhecemos — pouco — o que acontece com as populações originárias no Brasil, o cinema nos apresenta o que acontece no resto do continente. A Pequena Guerreira volta à Crise de Oka, quando a corte canadense decidiu que terras Mohawk seriam liberadas para a construção de novos buracos de um clube de golfe e um condomínio. Como protesto, os nativos fizeram uma barricada impedindo o acesso à área.

O violento conflito entre governo e Mohawks durou mais de dois meses e a história é contada através das percepções da jovem Beans. A conhecemos antes dos eventos, ainda sem perceber que o preconceito contra os indígenas no Canadá vai muito além do apelido que ela usa quando percebe a dificuldade da diretora da escola onde sonha estudar para pronunciar seu nome. A ingenuidade da protagonista, que se confunde com parte da audiência, não dura muito e a tensão que transformará tanto o filme quanto a personagem começam logo em seguida.

Tracey Deer baseou o filme em suas memórias e mistura ficção com imagens documentais e isso funciona bem por fazer uma relação com a realidade da própria Beans, que está dividida entre dois mundos. Como todas as jovens da sua idade, ela é uma menina presa aos modelos e modos dos pais e querendo experimentar aquilo que vê os outros fazerem, tem hormônios que falam mais alto do que qualquer outra coisa. E hormônios não estão ligados apenas a desejo, eles também potencializam outros sentimentos.

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Beans (2020)
Foto: Reprodução

A Pequena Guerreira tem elementos de muita força, e Kiawentiio, atriz que vive Beans; Violah Beauvais, como a fofa Ruby, e Rainbow Dickerson, simplesmente fantástica como sua mãe, são, sem dúvida, os maiores deles. Além da química entre elas, o modo como ambas interagem com o ambiente e como alternam entre os momentos de violência e de afeto é incrível. Outro acerto da diretora está no modo como ela lida com a tensão, criando bons momentos de tensão, como a boa sequência da partida das mulheres e crianças ou a do salão de jogos.

Deer amarra bem seu filme até aqui. Todas as ações são coerentes e o retorno da família à casa é uma das sequências mais ousadas do longa, cheia de adrenalina, principalmente pela impossibilidade da travessia e a condição física de Lily. Mas os fatos são seguidos por alguma desatenção, como se houvesse muita coisa que a diretora quisesse mostrar mas não houvesse mais tempo hábil. A subtrama de April recebe menos atenção do que merecia, a própria postura de Beans é pouco crível, porém é algo que consegue se recuperar. 

A Pequena Guerreira fala da realidade da intolerância, que nunca deixará de existir em um mundo onde a corda não arrebenta nunca do lado dos colonizadores e opressores, mesmo que haja otimismo em seu final, com a comunhão dos povos nativos. Não deixa de ser tocante e muito bonito de se ver, assim como é muito forte acompanhar Beans se apresentando à turma de sua nova escola. A verdade fora das telas, sabemos, infelizmente não é de integração.

Um grande momento
Passando a cerca pelo rio

[2021 Bentonville Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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