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O Livro do Amor

Pimenta diluída em molho inglês

(Book of Love, MEX, GBR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Romance
  • Direção: Analeine Cal y Mayor
  • Roteiro: Analeine Cal y Mayor, David Quantick
  • Elenco: Sam Claflin, Verónica Echegui, Horacio Garcia Rojas, Lucy Punch, Fernando Becerril, Ruy Gaytan, Sofia Sisniega, Galya Vidal, Laura de Ita, Giovani Florido
  • Duração: 106 minutos

Quando um filme é afundado em clichês, às vezes basta um dado para torná-lo “diferente”, ao menos aos olhos do cinéfilo que acompanha os lançamentos e se empolga na hora de assistir algo novo. É bem verdade que também existem esses disfarces mal ajambrados que não convencem muito bem o espectador e deixam claro que o retalho utilizado ali foi proposital. O Livro do Amor, super estreia da semana do Telecine, fica no meio do caminho entre uma coisa e outra, e acaba por expor as fragilidades de uma comédia romântica simpática, bem agradável até, mas que não tem qualquer maior intenção de permanência na nossa mente – o esquecimento faz parte do pacote.

Dirigido por Analeine Cal y Mayor, o filme é uma coprodução Inglaterra-México e também é sobre esse intercâmbio cultural que passeia sua premissa, também reside aí algo do seu frescor. O ambiente mexicano não é nada extraodinário às produções americanas, que vivem bebendo no país para realçar suas tramas, mas vindo da Europa e de um país vendido como discreto, a latinidade e suas idiossincrasias despertariam um molho especial que o filme poderia apostar como um fato de interesse. Aos poucos, no entanto, os temperos vão se tornando cada vez menos calientes, como se a timidez britânica afetasse o resultado que o filme tenta apregoar como algo acertado – a vida precisa de calor.

O outro dado de novidade residiria no próprio enredo, que junta um jovem autor inglês de um livro fracassado e sua tradutora mexicana, que jogou pimenta na narrativa sem sal do seu livro, tornando a falência de vendas em terras locais em um sucesso inimaginável na terra de Guillermo Del Toro. Só que o livro foi absolutamente descaracterizado, e obviamente que Henry Copper, o pai da “criança”, não ficará feliz a que custo o reconhecimento veio. Na apresentação, essa premissa é deliciosa e instiga o leitor contemporâneo, que afasta propostas mais reflexivas em nome de uma ousadia imediata, que os carregue para lugares longe de suas vidas banais.

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O Livro do Amor ganha pontos ao não tratar as diferenças culturais de maneira vazia e estereotipada, como acontece com frequência. Ainda assim, são as características de Henry e da cultura mexicana que entram em colapso, principalmente no que concerne à recepção de suas diferenças, ainda que sempre pareçam diluídas em entendimento futuro. A postura do autor é tipicamente uma versão do personagem de Hugh Grant em Um Lugar Chamado Notting Hill, e é positivo que Maria não seja vendida como uma latina típica. No entanto há uma cobrança de sua parte por um reconhecimento como artista que só faz sentido na reta final, quando ela de fato fez algo que não se apropriar de obra alheia, ainda que não obtendo nenhum lucro.

Quando o filme acerta essas questões referentes a uma cobrança muito justa da protagonista feminina, parece que as coisas se assentam positivamente dentro da narrativa, mas a progressão qualitativa de sua mensagem não apaga o quanto o filme aceita sua condição mediana. Não há nada muito o que comemorar aqui no resultado, principalmente porque é cobrado do personagem masculino uma entrega maior e uma paixão que falta em sua vida, e quando ela finalmente entra, tudo acontece do modo morno como ele vendeu sua obra original. É como se o filme concordasse com a picância que Maria injeta na arte, mas que a vida real pede algo mais… morno, exatamente da forma como ela parece querer se rebelar.

O Livro do Amor, independente de ser arejado na construção de seus elementos iniciais, cai em contradição regularmente sobre as diferenças que enxerga em seus personagens. Ele acaba nem propondo que o “equilíbrio é o ponto ideal”, porque o filme não discute tal coisa, e porque todas as suas escolhas tendem a tirar do México seus estereótipos, o que também acaba aproximando o filme muito mais de um típico romance inglês, cuja pimenta utilizada parece dar um sabor leve demais para provocar qualquer reação mais quente no espectador.

PS: eu decidi nem citar o momento “bloco de carnaval com 7 integrantes”, que a câmera tenta a todo custo não abrir para não mostrar a vergonha alheia. Ih, citei.

Um grande momento
Os autógrafos

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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