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O Ódio Que Você Semeia

(The Hate U Give, EUA, 2018)

  • Gênero: Drama
  • Direção: George Tillman Jr.
  • Roteiro: Angie Thomas (romance), Audrey Wells
  • Elenco: Amandla Stenberg, Regina Hall, Russell Hornsby, Anthony Mackie, Issa Rae, Common, Algee Smith, Sabrina Carpenter, K.J. Apa, Dominique Fishback, Lamar Johnson, TJ Wright, Megan Lawless, Rhonda Johnson Dents, Tony Vaughn, Marcia Wright, Al Mitchell, Karan Kendrick
  • Duração: 133 minutos
  • Nota:

Sim, é preciso se posicionar contra o racismo. É preciso entendê-lo e combatê-lo com todas as nossas forças, mas é fundamental entender que, por mais que vejamos, constatemos ou (re)conheçamos o racismo, nunca teremos a dimensão do que é sofrer desse racismo. Somos brancos e parte de uma elite, o que nos coloca num lugar de audição, união à luta, mas nunca de usurpação do discurso, pois é algo que não faz parte da nossa vida, nunca teremos sentido aquilo. Nada perto daquilo, eu diria. O filme O Ódio Que Você Semeia traz essa constatação de forma bastante contundente e por isso é tão importante para todos.

Imagine um pai sentar seus dois filhos, uma menina de 9 anos e um menino de 10, para ensiná-los a como reagir a uma abordagem policial. “Um dia vocês vão estar comigo e podem apostar que isso vai acontecer. Não quer dizer que eu tenha feito algo errado. Talvez eu tenha feito alguma coisa dirigindo, talvez eu não tenha feito nada”, ele diz antes de explicar o modo de agir. Essa é a realidade de um mundo que persegue e ameaça pessoas apenas pela cor de sua pele.

Megan Lawless, Amandla Stenberg e Sabrina Carpenter em O Ódio Que Você Semeia (The Hate U Give, 2018)

Ao voltar no tempo, vemos um mundo construído com a sistêmica diminuição dos negros, escravizados e negociados nos países do Novo Mundo, passando por infertilizações em massa, como na Alemanha Nazista; assistindo à usurpação de terras, como ao fim da Segunda Guerra, e sendo taxados de inferiores e perigosos no mundo todo, até os dias de hoje. Um racismo que se apresenta de formas diferentes, dissimulado em alguns lugares, assumido outros, mas sempre excludente e perigoso.

O Ódio Que Você Semeia, alusão à famosa frase do rapper Tupac Shakur “o ódio que você dá aos pequenos ferra todo mundo – T.H.U.G L.I.F.E”, faz questão de destacar dois pontos: o afirmar da negritude em um mundo dominado por brancos e a truculência policial que, obviamente, é muito mais grave contra negros. Quem guia o espectador é a jovem Starr (Amandla Stenberg, de Jogos Vorazes), a menina que fora instruída pelo pai no começo do filme. Ela tem duas vidas: uma em que assume posturas e se priva da própria identidade para lidar com os amigos do colégio, em um bairro branco, e a vida compartilhada em uma comunidade negra, com pontos positivos, em um senso de irmandade muito forte, e o negativos, com o tráfico de drogas e os votos de silêncio.

Amandla Stenberg e Algee Smith em O Ódio Que Você Semeia (The Hate U Give, 2018)

É lá que vivencia a desproporcionalidade de ações, de maneira geral no cotidiano, e de maneira específica quando vê seu amigo ser baleado por um policial branco. Nada do que se vê no filme é desconhecido, mas segue acontecendo. Lá, nos EUA, com casos como o espancamento de Rodney King, em 1991, ou o assassinato de George Floyd por asfixia, este ano, entre tantos outros que não foram filmados. Aqui, no Brasil, no extermínio cotidiano de negros, com execuções como a da vereadora Marielle ou assassinatos como o do menino João Pedro, e de tantas outras crianças, adolescentes e adultos.

O longa, adaptado do romance de Angie Thomas e dirigido por George Tillman Jr., vai buscar na realidade, diária e ocasional, o objeto central de sua trama. O acompanhar o cotidiano de Starr possibilita destacar situações corriqueiras ou não, em ambientes diversos, e oferece uma gama mais diversa para a representação de medos, preconceitos e constatações. Pontualmente, vemos ações conhecidas e já muitas vezes presenciadas que escancaram o racismo estrutural que guia a sociedade, seja no desenrolar da trama do assassinato ou nas reações de Hailey, a colega da escola.

Amandla Stenberg em O Ódio Que Você Semeia (The Hate U Give, 2018)

São muitas observações que cabem perfeitamente: os brancos que querem se comportar como negros, a falta de empatia, a exclusão social e a falta de oportunidades, a diversidade pró-forma, a postura classista assumida, a violência das gangues, o descrédito da vítima, a manipulação da mídia. O Ódio Que Você Semeia descentraliza a filosofia de Tupac e mostra as consequências dessa distribuição de ódio, que está na adolescente loira que despreza os negros e vê suas vidas como menos valiosas, assim como na violência das gangues, foco original do rapper quando criou seu manifesto.

Ainda que tenha seus problemas técnicos, com uma fraca amarração do roteiro e alguns tropeços no ritmo, o filme dá a chacoalhada que a sociedade precisa para prestar atenção em um tema urgente. Se a realidade não incomoda e indigna alguns, cabe à arte encontrar o didatismo para tentar explicar aquilo que não é entendido. Aí está o maior valor de O Ódio Que Você Semeia: na possibilidade que abre para uma percepção maior do quadro geral. Se não há retorno a explicações históricas, o longa mostra o que se dá hoje, aquilo que está acontecendo agora na esquina de qualquer comunidade negra, e toda uma sociedade, principalmente a sua elite branca, finge que não está vendo.

Um Grande Momento:
“Deixa meu pai em paz.”

Poster de O Ódio Que Você Semeia

Telecine

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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