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O Último Navio Negreiro

Profundezas do racismo

(Descendant, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Margaret Brown
  • Roteiro: Margaret Brown
  • Duração: 105 minutos

Assim que foi promulgada a lei que proibia a comercialização de novos escravos há mais de 150 anos nos EUA, o rico empresário Thomas Maher quis provar que poderia enganar essa nova lei, indo até a África e trazendo mais sofrimento a um povo. E foi o que ele fez. Provou que podia e depois, para apagar rastros de seu crime, ele queimou o navio Clotilda que fez a viagem e o afundou às margens de sua propriedade em Mobile, Alabama. É a partir da investigação desse escárnio de um homem pela justiça que parte o documentário O Último Navio Negreiro, um dos mais importantes e bem criticados filmes do gênero no ano, já forte candidato aos prêmios da categoria. Em cartaz na Netflix, a produção é uma aula de História, cidadania e horror que se mantém através de mais de um século. 

A diretora Margaret Brown é moradora de Mobile e provavelmente ouve essa história ser contada durante toda sua vida, até decidir registrá-la enquanto longa metragem. O que apresenta então é uma forma digna de documentar uma passagem tão vergonhosa que não conseguiu se encerrar naquele capítulo, e continua causando danos mesmo 162 anos depois. O filme apenas parte dessa história infame de um homem e sua família para com as leis de seu país, para explorar os tentáculos do racismo, da opressão da máquina estatal e do poder do dinheiro, que compra e corrompe o que quer. Não é um título em nenhum momento feliz com o que filma ou apresenta, mas que compreende a importância de acessar essa passagem infeliz para novas gerações. 

Descendant
Participant/Netflix

O Último Navio Negreiro é a ponta de um iceberg que inclui ainda a gentrificação de uma comunidade, a manutenção do câncer entre toda uma cidade, a transformação do parque geográfico local, a retirada de seu lugar de origem sendo refeita através dos tempos. É uma sucessão de absurdos que começa em 1860 e parece não ter mais fim, com ainda hoje respingando novos capítulos de opressão, negligência e banditismo típico de um modelo de sociedade que já deveria ter sido extinto, mas que insiste em ainda demonstrar poder. Serve de modelo para quando precisarmos recordar os absurdos que as novas gerações não viveram, para que elas mesmas escolham não entrar por esse lugar repetido de manutenção de opressões históricas. 

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Dentro do que pode se considerar uma discussão cinematográfica, O Último Navio Negreiro não mede esforços para criar uma textura que escape da padronagem cansada da tradição do documentário. O filme utiliza o livro ‘Barracoon’ de Zora Neale Hurston para nortear sua montagem e roteiro, servindo de guia para a construção de uma viga mestra para Brown. Hurston também nasceu em Mobile em 1901, e conheceu um dos últimos escravos trazidos pelo Clotilda, na qual ela descreveu toda sua jornada de Daomé (hoje Benin, e palco também de A Mulher Rei) até os Estados Unidos. São relatos cheios de dor e desumanização, mas que carregam a poesia de uma autora hoje celebrada, e que teve a obra escondida por 87 anos. 

Descendant
Participant/Netflix

Através da leitura de passagens do livro, os descendentes desses escravos do Clotilda se abrem e repassam as trajetórias de sua luta por reconhecimento do que aconteceu com seus antepassados em um crime acima de outros, imperdoável em muitos níveis. Ao acessar essas pessoas e suas batalhas diárias pela memória e pela justiça, que O Último Navio Negreiro torna-se peça viva de um passado que precisa ser reavivado para que não possa ser retomado. Essas passagens e a de um dos descendentes que recorda como sua cidade foi alterada por um progresso predatório que marcam o filme, que não é tradicional, mas se cristaliza a partir de determinado momento. Mesmo assim, não deixa de apavorar em determinadas sequências e de provocar uma esperada revolta em tantas outras. 

Um grande momento

Imagens de Cudjo 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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