Crítica | StreamingDestaque

Enola Holmes 2

Tipo exportação, porém cheio de bossa

(Enola Holmes 2, RUN, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Aventura, Comédia
  • Direção: Harry Bradbeer
  • Roteiro: Jack Thorne, Harry Bradbeer
  • Elenco: Millie Bobby Brown, Henry Cavill, Helena Bonham Carter, David Thewlis, Louis Partridge, Adeel Akhtar, Susan Wokoma, Hannah Dodd, Gabriel Tierney, Tim McMullan, Sharon Duncan-Brewster, Himesh Patel
  • Duração: 125 minutos

Tudo que Harry Bradbeer aprendeu no comando de Fleabag já tinha tentado incutir no primeiro Enola Holmes, e para esse segundo a fórmula não foi mudada. De aceitação imediata pelo público, vale a máxima “não se mexe em time que está ganhando”, então praticamente tudo foi mantido. A Warner, que vendeu o primeiro título para a Netflix por conta da pandemia, deve continuar muito revoltada por ter perdido uma franquia muito evidente de acontecer. E chegamos a esse Enola Holmes 2, uma das estreias mais importantes do mês (quiçá do ano), que claramente tem mais investimento, maiores oportunidades de alcance cinematográfico e um escopo mais largo. Lógico, nada mudou dentro de uma lógica de mercado. 

Bradbeer e seu roteirista, Jack Thorne (do próximo lançamento Netflix, As Nadadoras), resolvem muito bem as necessidades da adaptação de uma típica série de livros teen, que exige umas demandas particulares, além de apresentar suas histórias com algum charme e sem atropelos. Por exemplo, acho que aqui a pegada foi ainda mais satisfatória justamente no ponto da transposição livro para filme. O título anterior tinha aquela correria que se vê em qualquer adaptação cinematográfica de um material literário; aqui, essa situação foi mitigada e o filme tem boa curva narrativa. Sem deixar pontas soltas no ritmo, nem se deixar levar por escolhas habituais, como excesso de personagens, Enola Holmes 2 prende a atenção e desenvolve seu mistério com charme. 

Henry Cavill, Millie Bobby Brown e Louis Partridge em cena do filme Enola Holmes 2
Alex Bailey/Netflix

Aliás, essa é outra questão que evolui do primeiro para esse novo título. O plot investigado aqui é muito saboroso, coisa que no primeiro, até por uma questão de apresentação de personagens, passava longe de realizar. Já com a atmosfera compreendida, há espaço aqui para divertir o espectador de verdade com as revelações da jovem Holmes e do seu irmão. Além disso, é um filme que é um produto, sabemos disso, mas é um da safra ‘novo milênio’, e o que isso significa? Significa que tematicamente, Enola Holmes 2 não chega a ser um filme político, mas ele entende a importância de certas afirmações para o nosso tempo. Sem soar gratuito, o filme consegue passar sua mensagem sem chatice. 

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Como o dinheiro entrou mais largo, a produção também conseguiu uma guaribada, sendo recheado de uma tensão maior que no primeiro filme. Essa tensão se transforma em eficientes sequências de aventura, onde praticamente todo o elenco precisa estar em pelo menos uma, ao menos uma vez. Vindo de um diretor mais ligado à narrativa, Enola Holmes 2 mostra mais uma vez esse lado galhofeiro de Bradbeer. Assim como em sua série mais premiada, Enola quebra a quarta parede ao conversar com o público e indo na direção do mesmo para encontrar certezas que ela ainda não tem. É a mesma jogada que não apenas Fleabag influenciou, mas uma gama de títulos cada vez maior, cada vez menos original. 

Millie Bobby Brown em cena do filme Enola Holmes 2
Alex Bailey/Netflix

Entretenimento ligeiro com um elenco de encher os olhos (Henry Cavill, Helena Bonham Carter, David Thewlis, além da própria Millie Bobby Brown), Enola Holmes 2 não veio ao mundo para provocar grandes movimentações estéticas e narrativas. Que descubramos que uma coisa até óbvia aconteceu, o feminismo e a sororidade da produção, e deixou o filme com um ar mais profissional, menos desleixado com sua existência mesmo, já é um ganho. São 2 h de duração onde você se diverte, torce pelos mocinhos, fica com raiva dos vilões, tudo de maneira muito destacada. Aqui e ali escorrega para uma certa histeria, mas que faz parte de um produto de primeira grandeza ‘netflixiana’. Mais um sucesso virá, aqui de um lugar absolutamente confortável, e também agradável.

O estranho é perceber que dois dos intérpretes protagonistas, Brown e Thewlis, estejam em registros tão canastrões, creio que até propositadamente. Duas interpretações que saem do escopo do restante do elenco, bem uniforme, para apresentar um trabalho muitas vezes de uma agudeza inexplicável. Não atrapalha o resultado final, e temos que levar em consideração que Enola Holmes 2 não é um exatamente um filme contido. Mas o barulho da unha arranhando o quadro negro existe, e os atores – que já se provaram muito superiores ao que é visto aqui – parecem à vontade com o incômodo que eles mesmos produzem. Fazer o quê né?

Um grande momento

A Santíssima Trindade

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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