Crítica | Streaming

Lar dos Esquecidos

Algo errado não está certo

(Old People, ALE, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Andy Fetscher
  • Roteiro: Andy Fetscher
  • Elenco: Melika Foroutan, Louie Betton, Anna Unterberger, Gerhard Bös, Maxine Kazis, Otto Emil Koch, Paul Faßnacht
  • Duração: 101 minutos

Depois de falar com o namorado sobre a triste situação de abandono dos idosos, uma cuidadora chega ao apartamento de seu paciente, um senhor já com problemas respiratórios e muitas dificuldades de locomoção. Lá, é morta por ele. A intenção do diretor Andy Fetscher é chocar, com o inusitado da situação, a violência da cena e, muito mais, o estado das coisas. Aquilo que se viu toma forma de levante e o filme mostra sua faceta crítica quando, ao passear pelo apartamento, se demora em um quartinho bordado que diz que a solidão é a dádiva da velhice.

Em um país onde a população tem um alto percentual de idosos em comparação com o número de jovens, como a Alemanha, a questão do abandono é ainda mais pertinente, embora ela possa ser reconhecida em quase todas as sociedades do mundo. A relação com os idosos como se dá hoje, repleta de etarismos e abandono afetivo inverso, é, sim, terreno fértil para argumentos de filmes não só de drama, mas também de terror, como esse Lar dos Esquecidos, que está no catálogo da Netflix.

A trama é daquelas que retorna no tempo. Do apartamento com a cuidadora assassinada e da Berlim com prédios em chamas vamos a Ella (Melika Foroutan), uma mulher que segue com seus dois filhos para o casamento da irmã em uma pequena cidade do interior. Lá estão também seu ex-marido, agora em um novo relacionamento, e seu pai, que vive em uma terrível casa de repouso para idosos. O longa vai da violência para o drama familiar, e abandona o tom cinza para assumir uma estética solar, cheia de cores, luz e música.

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Fetscher exagera no tom margarina que passa dar ao filme, com todo aquele filtro amarelo, drones e contraluz sem saber muito bem como contrapor realidades. Isso ilustrando um roteiro de seguimento óbvio, com informações e dicas aleatórias para adiantar aquilo que virá a seguir, com menos atenção à crítica que, a princípio, parecia querer tomar para si. A revolta dos idosos que se dá em Lar dos Esquecidos, portanto, passa a não funcionar como deveria. 

O descaso superexposto na terrível casa de repouso onde os idosos sobrevivem sem atenção e cuidados sanitários devidos, com pouquíssimos funcionários e muita sujeira, ainda justifica tal válvula motriz. A linha que se traça com a relação distanciada de Ella e seu pai, Aike (Paul Faßnacht) personaliza isso, mas alguns elementos vão criando empecilhos ao desenvolvimento, como a definição do grande vilão do filme, vivido por Gerhard Bös, e a zumbificação de seus seguidores, numa desumanização que está fazendo exatamente o que critica.

Mesmo que tente voltar ao assunto, com discurso desse personagem amedrontador, Lar dos Esquecidos já se transformou em apenas mais um filme de zumbi slasher, com um bocado de cenas gore — algumas boas, até — e muitos clichês do gênero. E não é esse o seu único problema. Não satisfeito com o esvaziamento contextual, o longa ainda investe em uma trama paralela de disputa entre mulheres completamente equivocada e contraproducente, deixando de ser só etarista para virar também machista.

Perde-se portanto o conceito, e a intenção deixa de ser suficiente para sustentar o longa naquilo que ele pretendia/poderia ser. Ainda assim, tem lá algum suspense e ansiedade que são comuns a todas as produções desse tipo e funcionam para prender o espectador até o final.

Um grande momento
Nada tanto assim

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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