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Passagem

Mais ferimentos de guerra

(Causeway, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Lila Neugebauer
  • Roteiro: Otessa Moshfegh, Luke Goebel, Elizabeth Sanders
  • Elenco: Jennifer Lawrence, Bryan Tyree Henry, Linda Emond, Jayne Houdyshell, Stephen McKinley Henderson, Frederick Weller, Danny Wolohan, Will Pullen
  • Duração: 88 minutos

Ao menos dessa vez trocaram o gênero desse personagem, mas o filme não tem muita diferença para outros já vistos. É como se resumisse a um único aspecto produções como Guerra ao Terror e Sniper Americano. Temos em Passagem, estreia de hoje da Apple+, um recorte único a respeito do soldado sobrevivente aos horrores da guerra no Oriente Médio. Tire tudo o que é guerra e deixe apenas os traumas que passam esses homens e mulheres ao voltar da ação, e temos o momento em que está vivendo a personagem de Jennifer Lawrence aqui. Sem flashbacks ou rememorações visuais de qualquer tipo, o que aconteceu com Lynsey está em seu olhar e em sua dor interna; nessa observação, até existe uma elevação da produção.

Lila Neugebauer, diretora de um capítulo da aclamada minissérie Maid, estreia na direção de longas aqui, com pouca experiência na labuta. O que vemos é um produto até sincero, muito direto e sem firulas; em poucas palavras, até com pouca personalidade, diante de um tema que vem sendo espremido há algum tempo no cinema. Se formos pegar guerras pela História, todo mundo já falou desse sobrevivente traumatizado, vide Os Melhores Anos de Nossas Vidas, vencedor do Oscar de 1946, que já falava sobre a guerra psicológica que começava no pós-conflito. Logo, o tema não é nada novo; o que é bem raro, talvez inédito, é o cinema colocar a mulher nesse lugar, sendo que elas estão sendo mandadas para a batalha campal igual aos homens, e voltando tão destruídas quanto. 

Passagem está concentrado nos danos internos, muito mais que externos, de uma guerra. No caso da protagonista aqui, danos esses estendidos à sua vida anterior à convocação, que já era bem injuriada. Uma relação difícil com a mãe e o testemunho de uma descida ao inferno do irmão a fez justamente optar pelo coração das trevas, mas nada mudou em sua volta, e o que mudou, foi para bem pior. Agora ela se sente deslocada não apenas em casa, mas na vida que leva, no recorte em que está inserida, o que faz com ela sinta vontade de retornar ao front, com tudo que viveu de infernal por lá. Para isso, o roteiro coloca Lawrence em momentos de muita introspecção e silêncio, e consegue extrair da atriz a sua melhor atuação desde mãe!, intensa e muito compenetrada nessa mulher que nem tenta fingir que está tudo bem.

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Engraçado observar o caso de Lawrence, aí atentando ao machismo da indústria, que Bradley Cooper e Jeremy Renner foram muito indicados a prêmios em seus anos pelos filmes onde interpretam a versão masculina de Lawrence aqui, e ela esteja caminhando para passar despercebida. Ok, o ano feminino está muito agitado e não há vaga para ela, mas sua interpretação é tão boa quanto a dos meninos, e ela não vai cavar esses mesmos lugares. Seu olhar vago e sua impermanência de espírito refletem um corpo vazio do sentir, e isso por si só seria capaz de colocar qualquer homem na lista de favoritos. Retrato de uma corrida de premiação enforcada, cheia de possibilidades femininas diversificadas (ainda bem), mas que não deixa escapar o estado das coisas em Hollywood e adjacências. 

Ao lado de Lawrence, dois atores em desempenhos fortes deixam Passagem um pouco menos descartável. Linda Emond, que arrebenta em inúmeras séries como Succession e está em Imperdoável, tem aqui um raro papel no cinema que demonstra seu talento e sua entrega por inteiro. Já Bryan Tyree Henry é habitualmente um ator genial, e só esse ano já detonou em Trem Bala, fora os grandes momentos em Se a Rua Beale Falasse, Viúvas e muito mais. Ele está dentro de sua área confortável de excelência, como um homem tão massacrado pela vida quanto Lynsey, e ainda esconde alguns segredos e muitos sentimentos adormecidos. Não é necessariamente seu momento mais especial, mas é uma interpretação que o recoloca nos holofotes como o grande ator que todos já sabemos que ele é. 

No mais, até nisso Passagem não se compromete, com a relevância. É mais um filme, sobre um assunto que temos acompanhado com frequência, onde seus grandes intérpretes estão grandes mais uma vez, e não acima de suas médias. É um produto de qualidade segura, que não ousa em nada, nem se compromete com qualquer nível de ousadia, pelo contrário, é um roteiro que parece fugir de ampliar seu escopo; a vida pregressa de Lynsey é igualmente mais sentida do que sabida. Não incomoda nem nos desenha com um sentimento de perda de tempo, mas a sensação de que faltou (muita) coisa para entregar, essa é inevitável. 

Um grande momento

Os dois na piscina

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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