(If Beale Street Could Talk, EUA, 2018)
Drama
Direção: Barry Jenkins
Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Aunjanue Ellis, Ebony Obsidian, Dominique Thorne, Diego Luna
Roteiro: James Baldwin (romance), Barry Jenkins
Duração: 117 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

A estrutura lacunar de Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), filme anterior de Barry Jenkins, apesar de castradora de certo potencial dramático, faz bastante sentido considerando a personalidade reprimida de seu protagonista. Jenkins sublima quase todas as explosões emocionais que inevitavelmente ocorreriam na trajetória de Chiron (Alex Hibbert/ Ashton Sanders/ Trevonte Rhodes), transmutando-as em plasticidade visual. Em boa medida, o diretor tenta repetir esse artifício em Se a Rua Beale Falasse, adaptação de livro homônimo de James Baldwin.

Mas sem tanto sucesso, sobretudo por se tratar de uma história com muito mais substância narrativa, que exigiria de Jenkins maior dedicação a esse aspecto. Há a necessidade de dar conta do relacionamento entre o casal de protagonistas, Fonny (Stephan James) e Tish (Kiki Layne), com os entraves familiares que carrega; da injusta prisão do rapaz e dos subsequentes passos do processo; do racismo entranhado nos Estados Unidos da década de 1960. O diretor e roteirista até consegue incluir todos esses elementos no filme, mas de forma bastante desequilibrada.

Encantado com a beleza dos protagonistas e engajado na tarefa de ressaltá-la, ele repetidamente enquadra seus rostos em primeiríssimo plano, os olhares direcionados diretamente para a câmera. A profundidade de campo reduzida, regra com poucas exceções em Se a Rua Beale Falasse, parece reforçar esse interesse primordial pelos personagens, em detrimento do mundo que os cerca. Seria uma escolha legítima se Jenkins de fato desenvolvesse Fonny, Tish, seus parentes e amigos, mas todos parecem existir no filme apenas como avatares sentimentais de uma história ultrarromântica.

O amor inabalável dos protagonistas é um pressuposto a ser aceito – e não o resultado de uma relação construída concretamente na diegese – para que o diretor passe então a seu real interesse: criar imagens plasticamente lindas do casal caminhando por Nova York, perdendo a virgindade, se declarando mutuamente etc.

O resultado é um filme extremamente reiterativo, que perde a chance de contar uma história que poderia ser de fato muito boa. A complexidade do processo de Fonny e os sacrifícios feitos por aqueles que cercam os protagonistas para tentar tirá-lo da cadeia se perdem como rápidas referências em meio a belas imagens. No primeiro caso, Jenkins parece satisfeito com a inserção de alguns planos do advogado (Finn Wittrock) pensativo, preocupado; no segundo, com o anúncio pela narração em over de algum esquema ilegal armado pelas duas figuras paternas do casal (Colman Domingo e Michael Beach), ilustrado numa breve ação em split screen.

A exceção é a sequência da viagem da mãe de Tish (Regina King) a Porto Rico, para tentar convencer a jovem supostamente estuprada por Fonny a retirar a acusação. O encontro das duas tem uma força dramática considerável, recheada de olhares ao mesmo tempo cúmplices e desconfiados, de não ditos decorrentes do mútuo entendimento do que significa ser mulher (e negra ou latina) nos Estados Unidos (especialmente em sua versão sessentista). É também o único momento de Se a Rua Beale Falasse no qual Jenkins permite uma explosão emocional, revelando, provavelmente sem essa intenção, a potência dramática que o filme poderia ter, se preocupado em equilibrar seu belíssimo olhar fotográfico (construído com o diretor de fotografia James Laxton e que frequentemente remete à obra de profissionais da área engajados no empoderamento do corpo negro) com uma cuidadosa dramaturgia.

Um Grande Momento:
O encontro em Porto Rico.

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