Crítica | CinemaDestaque

Trem-Bala

Diversão garantida

(Bullet Train, JAP, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: David Leitch
  • Elenco: Brad Pitt, Joey King, Aaron Taylor-Johnson, Brian Tyree Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Sandra Bullock, Bad Bunny, Zazie Beetz
  • Duração: 126 minutos

Lá em 2014, quando surgiu sem assinar oficialmente a direção de John Wick, o dublê David Leitch fez com que os olhos de todos os amantes do cinema de ação se voltassem para ele. Foram três anos até que lançasse seu primeiro filme, Atômica, e, deixando de lado questões contextuais, confirmasse sua habilidade na composição de cenas e naquela pegada frenética que faz bem ao gênero. Daí pra frente, o dublê-diretor, ou diretor-dublê, que levou para trás das câmeras suas habilidades nessa construção cheia de adrenalina, começou a deixar claro qual era a sua marca. Leitch é um cara que gosta da pancada, da perseguição, da explosão, mas gosta de fazer rir. 

Confortável no gênero, depois de levar às telas a sequência de Deadpool e o spin-off Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw, ele chega com seu primeiro projeto original, digamos assim. Trem-Bala é a adaptação do romance Mariabītoru, de Kōtarō Isaka, e conta a história de cinco assassinos que se encontram dentro de um trem e vai descobrindo, ao longo do caminho, que suas missões estão de alguma forma conectadas. Nesse tipo de Agatha Christie às avessas, o desfile de personagens interessa: o Príncipe (Joey King, de A Barraca do Beijo) é uma menina mimada de rosto angelical e mente doentia; Kimura (Andrew Koji, de Warrior) é um pai que quer vingar a tentativa de assassinato do filho; Tangerina (Aaron Taylor-Johnson, de Animais Noturnos) e Limão (Brian Tyree Henry, de Atlanta), são dois irmãos completamente diferentes que se completam e Joaninha (Brad Pitt, de Ad Astra) é o cara mais azarado do mundo.

Trem-Bala
Sony Pictures

Todos eles e outras figuras que surgem pelo caminho são apresentados de maneira estilosa ao espectador, com letreiros gigantes e em vários flashbacks. Leitch, bastante inspirado no cinema de Scorsese e Guy Ritchie (alguns dirão Tarantino, porque todo mundo só enxerga Tarantino em tudo), faz uma interessante mistura aqui, e também diverte a cada novo e absurdo encontro. O roteiro de Zak Olkewicz, que escreveu a segunda parte da trilogia Rua do Medo, embora não seja nenhuma pérola, é bem-humorado e as muitas participações especiais ajudam. 

Apoie o Cenas

Como era de se esperar, cada cena de luta de Trem-Bala é milimétrica e perfeitamente coreografada, principalmente quando se pensa que aqui temos um cara que gosta tanto de trabalhar com muito espaço e agora precisa se virar com algumas pessoas dentro de um vagão de trem. Não que não haja externas, elas estão ali nos tais flashbacks, mas são poucas para alguém que adora pessoas pulando amarradas em mangueiras, perseguições mirabolantes de carros e invasões pela janela de arranha-céus. Um dos meios de driblar essa limitação de espaço também está na variação de ambientes, algo até já visto em outros filmes recentes de expressos por aí.

Trem-Bala
Sony Pictures

Aliás, como em todos os outros filmes do diretor, muita coisa aqui vai lembrar outras obras já vistas, às vezes de maneira voluntária, outras nem tanto. Isso faz com que o filme oscile em personalidade, embora ela se mostre presente aqui e ali, e até mesmo se perceba numa passada rápida de olho, mas qualquer atenção mais duradoura mostra que falta um amadurecimento ali. Outro incômodo vem do modo como a história se amarra, com inclusões que têm uma função muito mais gráfica e de comprovação de habilidade do que valor narrativo. Em um longa com tantos personagens, elementos e reviravoltas, seria importante uma consciência disso, mesmo que se mantivesse a duração real do trem-bala japonês (o longa tem aproximadamente a mesma duração do percurso). Trata-se de conteúdo e não de tempo. 

Até porque essa não é uma questão no filme, de jeito nenhum. Ainda que tenha seus problemas, Trem-Bala diverte genuinamente do começo ao fim. É o típico filme que faz a gente desligar o cérebro e se enfiar na história, por mais sem-noção e violenta que ela seja. Leitch tem muito a amadurecer, é um fato, mas é bom na manipulação da ação e nesse casamento dela com o humor. Tendo em mãos um material com personagens incríveis, bons atores e tantos amigos para dar as caras, não tinha como não entreter. Sim, podia ser bem melhor, mas funciona. 

Um grande momento
Joaninha x Lobo 

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo