Crítica | Streaming

Atômica

(Atomic Blonde, ALE/SWE/EUA, 2017)
Ação
Direção: David Leitch
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Roland Møller, Sofia Boutella, Bill Skarsgård
Roteiro: Sam Hart, Antony Johnston (graphic novel), Kurt Johnstad
Duração: 115 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Cada vez mais mulheres assumem o papel de protagonistas em produções de ação. Atômica, baseado nos quadrinhos The Coldest City, escritos por Antony Johnston e ilustrados por Sam Hart, é mais um desses títulos. O filme, que conta com Charlize Theron no papel principal, volta aos jogos de espionagem que tanto sucesso fizeram na década de 1980.

Dirigido pelo ex-dublê David Leitch, Atômica tenta repetir o que foi visto em seu filme de estreia na função, De Volta ao Jogo, co-dirigido com Chad Stahelski. Porém, uma trama mais complexa e uma certa vontade de surfar na onda da agenda do momento acabam comprometendo o resultado final. Primeiro pela incapacidade de ser diferente do que já há de sobra por aí e, segundo, por tentar assumir um discurso sem aprofundar-se na intenção.

Claro que é importante que se favoreça novos protagonismos, mas, quando analisada mais a fundo, a trama não é algo que chegue muito longe. Buscando uma análise social, considerando-se mais a condição de gênero humano do que a própria construção cinematográfica, até que ponto aquela personagem é, na verdade, uma mulher? Há uma real preocupação em construir uma persona feminina por trás da espiã durona ou aquilo não passa de uma substituição de gênero: quando o papel e todos os atributos são masculinos mas coloca-se uma atriz para interpretá-lo?

Contextualizando, Lorraine é uma espiã casca grossa da agência inglesa. Ela tem como missão descobrir o agente duplo que está matando espiões de outras agências de espionagem. Tudo acontece nas proximidades da queda do muro de Berlim, marco do fim da Guerra Fria. O que se descobre no filme é contado em flashback pela protagonista, em uma audiência com seus superiores.

Fora o fato de que não há um pênis entre suas pernas, não há nada na personagem que a diferencie de muitos outros espiões do cinema. Não existe qualquer preocupação em humanizar ou definir nuances que poderiam e deveriam diferenciá-la de seus “colegas”. Pode-se dizer que isso é do próprio do cinema de ação, onde nem sempre o aprofundamento em personagens e tramas é necessário, e chega-se a um bom resultado com explosões, perseguições e lutas bem coreografadas. Mas, falta a construção do mito do herói e uma mínima atenção a sua persona, o que poderia dar mais ao filme, como se vê com os protagonistas de várias séries de ação, como o próprio John Wick, Jason Bourne ou mesmo Bryan Mills.

Outro problema está no modo como se opta pela exposição da violência. Entre todas as sequências de luta, o que há de mais explícito está nas cenas em que Lorraine sofre lesões. Em câmeras lentas ou closes é possível sentir um certo sadismo na tomada, coisa que não se percebe nos ferimentos infligidos aos homens do mesmo filme. O que se vê é uma mulher, enfiada em um papel de um homem qualquer, sem qualquer profundidade. Parece haver uma espécie de demanda reprimida, que se identifica até nas marcas que ela leva na pele – algo que a câmera também deleita-se em mostrar após cada sessão de porrada trocada.

Voltando-se mais especificamente à linguagem e a à construção imagética, também são muitos os equívocos, mas Atômica tem neste lugar alguns pontos positivos. O modo como volta ao final dos anos 80 destaca-se na produção de época interessante, com vários detalhes – e aqui se pode falar até dos marcadores temporais – curiosos e nostálgicos, e uma trilha sonora que potencializa um momento histórico marcante.

O elenco é funcional. Tanto Theron quanto James McAvoy – melhor em cena – cumprem bem sua função como os principais espiões do longa e estão bem acompanhados de participações menores, como é o caso de John Goodman e Eddie Marsan. O mesmo pode ser dito de elementos importantes na produção do gênero, como as já citadas coreografias de luta e um bom trabalho de som, em edição e mixagem.

Porém, tirando isso, não passa de um filme de ação comum, mais equivocado do que o normal, e que só diverte – a quem diverte – fugazmente. Nada mais do que um exemplar ufanista de ação, com os mesmos vilões e mocinhos de sempre, que tenta ser moderno, descolado e representativo, mas que não chega a lugar algum.

Um Grande Momento:
No apartamento.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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