Crítica | Streaming

Veloz, Furioso e Apaixonado

Entendendo a individualidade - e o individualismo

(Fast & Feel Love, THA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Nawapol Thamrongrattanarit
  • Roteiro: Nawapol Thamrongrattanarit
  • Elenco: Nat Kitcharit, Urassaya Sperbund, Anusara Korsamphan, Wipawee Patnasiri, Kanokwan Butrachart, Keetapat Pongruea, Joohong Lee, Chanyoung Kim, Joshua Ugochukwu Ezunagu
  • Duração: 132 minutos

Eu sei, caro leitor… esse título não anima qualquer ser humano a assistir essa nova estreia da Netflix, entrando na plataforma hoje. Mas acredite, além de Veloz, Furioso & Apaixonado fazer muito sentido ao que iremos assistir por mais de duas horas, ele também funciona como uma fina ironia a atividade que está em foco na produção, e que rege as relações apresentadas aqui. Apesar de sairmos da sessão embaralhados com as reais intenções do pretendido em cena, essa é a forma escolhida pelo roteiro para nos enredar, o que não demora a acontecer. As entrelinhas aqui são bem explícitas, e são exploradas desde a primeira cena, literalmente. O que você deseja, nem sempre será o que você encontrará no futuro – isso vale para homens e mulheres, jovens e adultos, sábios e ignorantes. E entre alguns, permeará pela vida afora. 

Pra tentar acalmar os corações aflitos, preciso informar que o filme é dirigido por Nawapol Thamrongrattanarit. Quem????, ok… é o diretor do espetacular Happy Old Year, que a mesma Netflix nos serviu dois anos atrás, e encantou uma parte considerável da cinefilia brasileira. Posso então dizer que o rapaz acertou de novo, e nem se deu ao trabalho de se repetir. Ainda que os valores e a sensibilidade para tratá-los tenham sido mantidos, aqui a fôrma mudou completamente, eu diria que um sopro acessível o tenha acometido. Ainda que seu título anterior não fosse internalizado, sua nova incursão é um trabalho pop de primeira linha. Isso deve afastar boa parte dos fãs que amealhou em 2020, mas também deve aproximar um público que nem se atreveu a consumir um drama mais denso; dá pra dizer que ambos se surpreenderão. 

Veloz, Furioso e Apaixonado
GDH 559

Apesar do batismo próximo a vulgaridade, Veloz, Furioso & Apaixonado atenta para muitas configurações. Sua textura abriga uma costura de comédia romântica que nunca se realiza por completo, e isso é positivo. Não há intencionalidade de apostar em um gênero específico por parte de Thamrongrattanarit, ele quer todos, ou talvez queira quantos seu filme abarcar. No lugar de atolar a produção entre múltiplas faces diferenciadas, o jovem cineasta as faz irmãs umas das outras – vemos um novelo desfazer-se, e sua linha nunca se desprender por completo. É uma roupagem que leva a outra, que leva a outra e assim vamos sucessivamente, sem atropelos ou correrias. O que se prenuncia é muito mais ingênuo do que o que se apresenta, e aí temos uma característica do cineasta sendo reapresentada, o de conseguir muito mais estofo para sua criação do que o imaginado pelo espectador. 

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Mais um filme sobre o processo de amadurecimento de um homem adulto que esqueceu providencialmente de crescer, assim como Papai é Pop, aqui também temos uma ideia de libertação feminina dentro dos papéis sociais que não estava previsto por quem o usufrui. Jay percebe com algum grau de atraso que Kao não vai crescer sem ela; pior, não vai adquirir qualquer sistema de anticorpos para a vida adulta. Passamos então de uma nesga de bizarrice a respeito de um campeão mundial do empilhamento de copos (sim!) para uma busca muito mais intrínseca a respeito da nossa função no mundo não ser como cabide, de parte a parte. Mesmo que inclua alguma dor no processo de crescer, na teoria e na prática isso precisa ser feito – o que vai acarretar crescimento físico mas principalmente emocional. E o filme segue dando dicas preciosas sobre o que está querendo dizer durante toda sua duração, parecendo falsamente desinteressado em cada discurso. Não caiam nessa, tudo o que é dito em cena importa e acrescenta tônus à narrativa. 

Veloz, Furioso e Apaixonado
GDH 559

Jay é uma mulher que, entre muitas outras, ouve que seus sonhos não serão alcançados, por mais prosaicos que sejam. Ao contrário dos homens que também ouvem coisas parecidas, ela introduz essa impossibilidade e vive à margem dos sonhos alheios. Mas a força da individualidade é o estopim para liberar a si de uma existência castrada, e seu grande amor de uma realidade de mentira. Não há felicidade, se sua essência não está à mostra. E Kao é, enfim, apresentado aos fatos – seu excesso de individualismo é o que lhe tosa. É aí, quando esse choque de extremos se revela, que Veloz, Furioso & Apaixonado embarca na sua zona mais introspectiva, mas não é uma transformação ao seu estado de coisas, mas no debate que promove com o espectador. 

Veloz, Furioso e Apaixonado, em meio a inúmeras discussões, também se abre ao campo etário para a realização dos nossos desejos mais profundos. Ao menos dois personagens infantis não só dão banho de personalidade nos protagonistas, sem ter uma aura adultizada em sua criação, e também refletem sobre essa seara, a do momento certo para tomar decisões definitivas. Há uma passagem de tempo no filme de 13 anos, entre 2005 e 2018, e muito provavelmente estamos sendo informados que, embora exista uma maturidade naquela primeira juventude mostrada, a mais atual já avançou algumas casas em direção ao amadurecimento precoce. O reflexo entre as duas realidades em 2018/2019 esbarra no clichê, mas é tudo tratado com a habitual destreza do diretor em tridimensionalizar seus tipos e as relações que eles constroem. 

Assim como em Happy Old Year, Thamrongrattanarit não fecha sua interação com o público, mas aqui o jogo é popular de verdade. Da atividade que se transforma de maneira obsessiva pelo protagonista (graus de autismo são presentes ali), até a atmosfera jovial que o filme apresenta, Veloz, Furioso & Apaixonado também é uma homenagem de seu autor ao Cinema. Indo a inúmeros títulos de maneira sutil (O Príncipe do Egito) até o mais rasgado (Parasita, com passagens incríveis, incluindo a recriação de um plano clássico de Bong Joon-Ho), desde o título o diretor deixa claro que o cinema de ação hollywoodiano tem lugar em seu coração. E o desfecho aqui nos fará mais uma vez sentir o nó na garganta que sentimos há sete anos atrás, aqui absolutamente integrado ao seu roteiro. E a vontade de “te ver de novo”, aqui, terá um significado ainda mais tocante, esperando de verdade que, da próxima vez, o amor (próprio) não seja perdido. 

Um grande momento
Jay e Kao finalmente conversam 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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