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Parasita

(Gisaengchung, KOR, 2019)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Bong Joon-ho
  • Roteiro: Bong Joon-ho
  • Elenco: Song Kang-ho, Jo Yeo-jeong , Park So-dam, Choi Woo-sik, Lee Sun-kyun, Jung Ji-so, Park Seo-joon, Lee Jeong-eun
  • Duração: 132 minutos

2019. O mundo capitalista segue com sua composição desigual, onde poucos têm absurdamente muito e a maioria esmagadora tem quase nada, com alguns tendo nada mesmo. Parasita é uma fábula que passeia entre o real e o fantástico para explorar a manutenção desse sistema de alienação de uns e sobrevida de muitos. Perturba por tudo o que consegue trazer em si. É cinema de um jeito que só Bong Joon-ho sabe realizar e é soco na boca do estômago como poucas obras conseguem ser.

A história gira em torno da família Kim, que é mais do que periférica. Ainda que tenham um lugar de privilégio diante de outros – isso está no filme, mas pode ser constatado por qualquer um que conheça o sistema –, estão literalmente sob a margem da margem. O sol entra em sua casa por um ínfimo basculante e qualquer coisa que aconteça na rua escorre por sua janela. Sem oportunidades de emprego, estão sempre dando jeitos para conseguir algum meio de se manter.

Parasita (2019)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Aquelas quatro pessoas são peças de um sistema criado para eliminá-las e, decididas a resistir a ele, encontraram meios de se moldar às situações, aproveitando brechas e mimetizando-se a uma estrutura nociva e repulsiva. É como se chega à família Park, o outro lado da moeda, alienada na figura da mãe e esnobe na figura do pai por nunca ter nem conhecido uma realidade diferente daquela. Joon-ho brinca o tempo todo com esse sentimento de acolhimento e repulsa no filme. É fácil compreender e, ao mesmo tempo, repudiar aquilo que se vê, confundir os sentimentos e abraçar a narrativa que segue fluida do começo ao fim.

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Parasita alterna momentos de tensão e humor no tratar de um drama social urgente e que é a realidade da maioria dos países na contemporaneidade. Ainda que em tintas exageradas e situações estapafúrdias, aquilo que se vê na tela é um retrato muito próximo do que existe hoje. Quando se pensa especificamente no Brasil, no momento atual, talvez o filme fale ainda mais alto. Dados os recentes acontecimentos políticos, quando uma eleição surge justamente após uma aproximação de classes, questões como “tem que saber o seu lugar” são ainda mais familiares.

Parasita (2019)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Tecnicamente, o longa-metragem é muito impressionante. Em seu transitar entre gêneros, algo caro ao diretor, verdadeiras pérolas estão escondidas, como toda a sequência da enchente. Um tour de encher os olhos de qualquer cinéfilo. A condução de atores também é outro ponto forte de Joon-ho, assim como o próprio trabalho dos atores, em especial de Song Kang-ho, como Sr. Kim, e Jo Yeo-jeong, como Sra. Park.

Parasita é um filme que vem para perturbar, num momento em que as pessoas realmente precisam ser perturbadas. Não é possível que se continue vivendo no mundo onde tamanha desigualdade existe e não se pare para pensar sobre isso. Especialmente para aqueles que acham que as pessoas vivem assim porque querem.

Um Grande Momento:

A enchente.

[42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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