Críticas

Bixa Travesty

(BIxa Travesty, BRA, 2018)
Documentário
Direção: Kiko Goifman, Claudia Priscilla
Roteiro: Claudia Priscilla, Linn da Quebrada, Kiko Goifman
Duração: 75 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

“Macho
Senta e observa a tua destruição”

O tom de ameaça e de desafio ao patriarcado esta impresso em cada milímetro, cada frame de Bixa Travesty, o filme-manifesto assinado a seis mãos pelo casal de documentaristas Claudia Priscilla e Kiko Goifman junto com a rapper Linn da Quebrada.

Linn disse em entrevista para Kiko Mollica do Canal Brasil – à época do lançamento do filme na Berlinale 2018, de onde saiu com o prêmio Teddy – que o documentário em tom de diário não é sobre ela, mas tendo ela como uma das vozes de um relato afetivo e político sobre a (re)existência de corpos trans no país que mais mata lgbtqi+ do mundo. “Além de ser uma ferramenta para o meu processo pessoal de transformação enquanto artista”, assinalou.

E se discutir gênero e abordar a transfobia são questões contemporâneas, a narrativa do documentário coloca o foco e a verve de Linn com seu discurso transfeminista no ponto nevrálgico e acertado de um enredo que trata da afirmação de uma potência humana. Linn, junto com outras artistas como Liniker, Assucena e Raquel do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, além de Jup do Bairro (sua “filha” artística), afronta as plateias dos seus shows e o público do cinema com a sugestão de que é preciso ENVIADESCER.

Ao atravessar um período especialmente turbulento seis anos atrás, quando lutou e venceu um câncer (e ela relembra vendo fotos e vídeos da época no computador de uma amiga), descobriu em si a potência da fragilidade e uma grande conexão, um amor que reverberava dentro de si e se espalhava pelo próprio corpo. Um corpo político e desejado/desejável. “Eu era traveca e agora sou mulher trans”, ela expressa, em uma das cenas do filme onde quebra a quarta parede e fala, de um estúdio de rádio, direto para ao público, narrando o programa da sua vida.

Ser um corpo que dança e que depois descobre, na solidão de um quarto de hospital e na promessa da finitude, a capacidade de rabiscar letras e rimas num caderno, Linn renasce. Já tendo sido Lino e Lara, ela, que tem receio de colocar uma teta ou duas, mesmo já portando apenas um testículo (o outro extirpado no tratamento da doença) dá a volta completa ao redor do Sol e se torna a Bixa Travesty. Aquela que habita um outro lugar do gênero, não-binario e livre de representações sexistas.

Tende à generosidade de trazer Jup, uma cantora e rimadora igualmente feroz para o centro da narrativa do filme, Linn abre espaço para ressignificar também o corpo gordo e trans. Ela – pronome tatuado acima da sobrancelha, como um lembrete aparente do que escolheu ser – agride em versos que falam sobre mulheres com pênis e sobre a bicha preta, estranha e da favela, que canta e grita sobre seu direito de existir. A luva de metal com unhas pontiagudas, espécie de amuleto herdado do grande ‘homem com h’ Ney Matogrosso, serve como armadura e também acentua a presença ainda de um membro masculino naquele corpo de mulher.

Não precisa panfletar sobre uma causa tão importante como a trans ou ter lido Judith Butler para tomar tento em relação aos corpos em aliança, da política das ruas, da performance gênero para se ter respeito, sendo cis, com quem é trans. Mas Linn está ali, cantando com ferocidade e iluminando um mundo tão obscuro como o dessa era bolsonarista para afirmar que não vai esmorecer.

Um Grande Momento:
Ao piano.

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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