Crítica | Cinema

Onoda – 10 Mil Noites na Selva

As bases da subserviência

(Onoda, 10 000 nuits dans la jungle, FRA, JAP, ALE, BEL, ITA, CAM, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Arthur Harari
  • Roteiro: Bernard Cendron, Arthur Harari, Vincent Poymiro
  • Elenco: Yûya Endô, Kanji Tsuda, Yûya Matsuura, Tetsuya Chiba, Shinsuke Kato, Kai Inowaki, Issei Ogata, Mutsuo Yoshioka, Angeli Bayani
  • Duração: 173 minutos

Embora o Cinema seja ele por si só o nascimento de uma experimentação de linguagem, estético e temático, o cinema clássico-narrativo é a maneira padrão como a sétima arte conquistou o status que se perpetua. E não há qualquer problema, a priori, em contar uma história da maneira mais cartesiana possível. Temos aí Onoda: 10 Mil Noites na Selva que estreia essa semana nos cinemas e propõe uma situação tão surreal e fantástica por si só, que atravancar sua realização com curvas narrativas muito acentuadas seria perder seu conceito, tão inusitado. Daqueles casos onde o espectador seguirá fiel a apresentação dos elementos na forma como ele estiver sendo, porque eles são tão repletos de possibilidades dentro de sua própria psicologia, que sua fruição será de suficiente prazer. 

Arthur Harari é um jovem ator e diretor que aqui está em seu terceiro longa-metragem, tendo a coragem de obedecer a preceitos históricos de como contar uma história. Digo coragem porque ele tem às mãos uma narrativa fascinante e assustadora, e correr o risco de manter suas raízes tradicionais é de um profundo bom gosto, além do acerto sem fim. Em tempos onde o cinema concreto tradicional não encontra repercussão positiva, com tantos cineastas encampando uma estrutura básica por absoluta falta de destreza, compreender o alcance de sua dramaturgia e insistir no cinema direto é digno de aplausos. Com um olhar dos mais embevecidos pelo objeto filmado que o cinema clássico-narrativo mostrou nos últimos anos, Harari mergulha de cabeça na tarefa de registrar aquele homem, e nada além; a diferença é que Hiroo Onoda não foi qualquer um. 

Onoda - 10 Mil Noites na Selva
Divulgação

Onoda, ao fim da Segunda Guerra Mundial, se refugiou em uma ilha nas Filipinas, à espera de um contato japonês para o contra-ataque que ele imaginava que aconteceria. Pouco depois, o Japão se rendeu e Onoda permaneceu por lá, sem acreditar no resultado que recebia; ele acreditava tratar-se de uma armadilha dos inimigos para tomar sua posição. Foi nesse esquema que ele viveu por mais de 30 anos, em um mergulho introspectivo por um conflito já encerrado. Narrativa exposta, o que Harari busca a partir de então é fazer muito mais que um registro biográfico sobre o que aconteceu – afinal, 30 anos não são 30 horas. Acertadamente o caminho escolhido é o do estudo de personagem, e o filme não cessa enquanto não reveste o espectador em torno do universo interior do protagonista. 

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Assim sendo, Onoda, por mais que contextualize outro personagem que convive com o protagonista por boa parte do tempo, é em seu personagem-título que se debruça. E junto a ele observar o processo de desvirtuamento de nossas certezas, e como a obediência cega tão comum entre os orientais – especialmente os japoneses – estão em movimentos que precisam ser ressignificados. Ao redor das tentativas de ler esse homem tão arraigado em suas convicções, o roteiro também investiga através do protagonista, as raízes do próprio Japão, enquanto sociedade. A assertividade de um povo, sua subserviência, a histórica construção das certezas que os tornou tão servil, não esconde o que ele tem de positivo, em seu senso de responsabilidade, na forma radical em que dispõe de sua vida pelo bem maior, abrindo mão de si pelo próximo. 

Onoda - 10 Mil Noites na Selva
Divulgação

Ao escolher analisar o seu tempo pela ótica de um homem, Onoda ganha pontos por se descolar do padrão biográfico tradicional sem rebuscar suas intenções. É uma produção que não ilude o espectador em sua construção imagética ou narrativa; a padronagem não se enverga para construir um resultado de risco. Aqui, a ousadia é em deixar a narrativa se embrenhar nos tão temidos ‘saltos temporais biográficos’ sem julgamento, justamente por imprimir em seu DNA uma leitura acerca da psicologia interna de seu enfoque. Seja Onoda ou seja a representação que o mesmo faz de seu país, o filme revela através de suas certezas uma fornada de aparência restrita. Aos poucos, a grandiosidade de seu tipo transforma o filme em uma discussão aprofundada sobre os padrões de obediência, desde a social quanto a particular.

Um grande momento
O incêndio na vila 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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