Crítica | Cinema

O Lendário Cão Guerreiro

Passar o tempo

(Paws of Fury: The Legend of Hank, EUA, CHN, GBR, CAN, 2022)
  • Gênero: Animação
  • Direção: Chris Bailey, Mark Koetsier, Rob Minkoff
  • Roteiro: Ed Stone, Nate Hopper, Mel Brooks, Richard Pryor, Norman Steinberg, Andrew Bergman, Alan Uger
  • Duração: 98 minutos

É de se admirar ver uma figura ausente dos holofotes hoje como Mel Brooks tão envolvido em um projeto, como o fez na nova animação O Lendário Cão Guerreiro, estreia nos cinemas. Além de dublar um dos personagens, o lendário comediante assina como um dos roteiristas porque o filme é uma versão livremente adaptada do clássico Banzé no Oeste, do cineasta. Tudo então começa a fazer sentido, certo? Mais ou menos, tendo em vista que remakes nem sempre precisamos contar com seus autores originais, principalmente se mudar até a textura de sua adaptação. Mas cá estamos, com uma proposta divertida de animação, cujas piadas devem funcionar melhor legendadas – o Brasil só terá cópias dubladas do título. A ideia de Brooks, no entanto, de 1974 pra cá, já inspirou muitas outras produções. 

Para quem não recorda, um forasteiro chega a uma cidadezinha, que desacredita da sua competência como xerife da mesma. De fato, o personagem não tem experiência para tal, mas determinação de sobra. Será constantemente sabotado e desafiado por provas e contratempos de difícil execução, até provar seu valor. No original dos anos 1970, esse xerife era um homem negro; aqui, temos uma sociedade de inspiação asiática composta por gatos, e esse personagem central é um cachorro. Ou seja, é uma trama pautada no preconceito e na aceitação das diferenças, que o próprio protagonista também terá de vencer. É um conceito universal que atravessa gerações, e que tem um impacto forte em platéias mirins, que precisam se conectar a bons valores. 

O Lendário Cão Guerreiro
Paramount Pictures

O filme preza pelo humor, bem mais do que animações tradicionais. Ou melhor, de uma maneira diferente, já que o humor aqui muitas vezes é mais dedicado à compressão dos pais que dos filhos. São piadas dedicadas à metalinguagem e a homenagens ao próprio cinema, mas que não deixam escapar também uma ideia de humor físico, mais rasgado. Mesmo as conotações infantis – e, apesar dessas colocações, O Lendário Cão Guerreiro nunca deixa de ser um longa para crianças mesmo – contém uma malícia que não está na pauta do dia do campo onde ele está inserido. Nada do que é feito, no entanto, está na contramão do que os espectadores menores sejam colocados em situações impróprias, longe disso até. É que talvez o filme respeite e não desacredite na inteligência das crianças. 

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O problema, para os adultos, é que o filme não imprime nada de muito novo, em qualquer que seja o quesito. É engraçado, é educativo, tem um colorido atraente e personagens carismáticos, mas nada marcante que saia de uma zona de conforto do quadro. Além dessa sensação constante de que não estamos diante de qualquer diferenciação, o filme tem sim seus problemas. Talvez o maior deles seja ter colocado o vilão tão longe da ação – e na maior parte do tempo, longe até mesmo da cena. Não que estejamos falando de um Scar ou um Jafar, pelo contrário; Ika Chu é bobo, seu sonho é construir um vaso sanitário gigante para receber o Shogun em seu castelo, e para isso precisa desapropriar uma vila. Não é carismático, não aparece o suficiente para ser marcante, ou seja, o filme não trabalha com contraponto. 

O Lendário Cão Guerreiro
Paramount Pictures

O lugar comum do roteiro, com as reviravoltas esperadas, quase no tempo certo que se imaginou acontecer, é outra questão delicada de resolver. Parece que não tinha muita vontade de tornar o filme algo ainda mais atraente, e foi feito algo muito básico, mediano até. O Lendário Cão Guerreiro está satisfeito em remontar a ideia original de Brooks, mudando sua ambiência e sua textura, saem os atores e entra a animação. Mais do que isso, sequer é cogitado, o que é uma pena, porque entre os diretores está Rob Minkoff, o homem por trás de O Rei Leão e O Pequeno Stuart Little, que não consegue reproduzir nada do caráter épico de um nem nada da fantasia deliciosamente inocente do outro. Em cena, temos um produto simpático e eficaz para o que se propõe, mas que propõe muito pouco; se encerra e com ele vai sua lembrança. 

Um grande momento
A chegada de Hank à vila 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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