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Perfil

Remodelando o drama

(Profile, EUA, GBR, RUS, 2018)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Timur Bekmambetov
  • Roteiro: Britt Poulton, Timur Bekmambetov, Olga Kharina
  • Elenco: Valene Kane, Shazad Latif, Morgan Watkins, Christine Adams, Amir Rahimzadeh, Emma Cater, Eloise Thomas
  • Duração: 106 minutos

De repente, todo mundo quer ter um desktop movie pra chamar de seu. Febre nos últimos anos, esse subgênero surgiu em 2006 em The Collingswood Story, com poucas variações do que é feito até hoje: encampar uma narrativa através das lentes de notebooks, celulares, computadores e afins. Geralmente atrelado ao suspense, foi com o sucesso de Amizade Desfeita que a discussão sobre o formato explodiu entre o público médio, e desde então inúmeros filmes, incluindo alguns sucessos, têm mobilizado o cinema de gênero. Foi imaginado que a pandemia do covid-19 deflagraria um interesse maior pelos títulos desse campo, mas a verdade é que Host foi o único filme que nasceu dentro do contexto. Com quatro anos de atraso, Perfil finalmente estreia no Telecine, e é mais uma surpresa desse grupo de filmes. 

O russo Timur Bekmambetov, que produziu tanto Amizade Desfeita quanto Buscando…, finalmente estreia na direção de um desses longas, e tem aqui seu melhor filme desde O Procurado, em um lugar completamente diferente do que sua filmografia atenta. Dentro dos títulos que já dirigiu, a grande maioria dos títulos tende para a ação desenvolvida dentro da ficção científica, e aqui uma dose de realismo ainda não visto sai de sua cadeira de diretor. Inspirados em eventos reais, como é costume do subgênero é desenvolvido em escopo muito diminuto; especificamente a tela de computador de uma jornalista que tenta transformar uma ideia de matéria em realidade. Nesse sentido, Perfil também promove um respiro a seu grupo de produções, ao propor mergulhar em páginas de jornais policiais para desenvolver sua ideia. 

Essa mudança é crucial para que os títulos ganhem importância que os valide para fora do cinema de gênero, que ainda é marginalizado. Mas essa validação é importante para quem? Um drama de tintas biográficas costuma ser algo menor no terreno cinematográfico, então o acerto de Bekmambetov é de muitas ordens, e uma verdadeira rasteira coletiva. Não é bem o desktop movie que precisava de Perfil, mas todos os outros gêneros que ele representa, mais precisamente a biografia, afundada na mesmice. Uma forma absolutamente inovadora de mostrar essa história em específico, que já foi detalhada de maneiras convencionais anteriormente, não adicionando nada ao remanufaturado de fábrica. Dessa forma, o que vemos é uma subversão de conceitos que se provam ainda mais arcaicos enquanto o longa se revela. 

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A carreira do próprio diretor, que estava estagnada em lugares que ele já não tinha nada a acrescentar, sai da respiração por aparelhos para divulgar novas possibilidades narrativas. Aqui, Bekmambetov oxigena um gênero padronizado para além do campo que o mesmo costuma apresentar. Perfil já teve diversas encarnações em suas outras maneiras de representar essa discussão sobre terrorismo, nas mãos de cineastas como Ridley Scott, que sempre entregaram o melhor possível dentro de uma caixinha moldada pela tradição. Aqui, cineasta e obra acabam por representar uma virada dentro de um lugar que não precisa estar nessa representação formulaica; já vimos esse roteiro repleto de perseguição e tiroteios – a tensão aqui existe, porém raramente sai desse cenário único. 

O roteiro do filme ainda propicia uma deliciosa picardia para a estrutura que o filme passado em telas de computador apresentou, até aqui. Pelo seu caráter imediato, o desktop movie geralmente encampa uma ideia de narrativa em tempo real, desenvolvida no tempo exato da duração. Em Perfil, Bekmambetov e suas co-roteiristas Britt Poulton e Olga Kharina permitem à produção que o sistema de arquivos da protagonista Amy sejam separados pelos diferentes dias de encontro entre ela e o recrutador islâmico que conheceu. Essa estrutura ajuda a ambiguidade da relação que nasce entre Amy e Bilel, o sedutor personagem que ela encontra em sua pesquisa, elemento mantenedor do suspense crescente da produção. 

Aliás, Perfil apresenta um caso onde a beleza estética era necessária para que a história fosse contada da melhor maneira possível. Vivido por um ator extremamente charmoso como Shazad Latif, Bilel se vale de sua plástica para conseguir desempenhar sua função no longa – trata-se de um fundamentalista islâmico recrutador de mulheres para a linha de frente da guerra. Com a estrutura elíptica muito bem conduzida e o carisma de Latif na frente da câmera (literalmente’), o filme se desenha como uma experiência de imersão parecida com a que a própria protagonista experimenta, mais uma característica do subgênero que o diretor absorve e subverte, ao reconfigurar as armas do suspense dentro de um arsenal narrativo do drama tradicional. 

Um grande momento
Amy em Amsterdam

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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