Crítica | Streaming

Perseguição na Neve

Clichês mantidos no gelo

(Allagash, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: John Barr
  • Roteiro: John Barr, Alan Petherick
  • Elenco: Tom Berenger, Kristen Hager, Paul Ben-Victor, Jimmy LeBlanc, Mark Sivertsen, Brian Duffy, Ace Gibson, Ryan Homchick, Caroline Portu, Erica McDermott
  • Duração: 89 minutos

Nem o tempo nem o cinema foram sensíveis a Tom Berenger. Nos anos 1980, o ator era considerado uma espécie de revelação, emendou indicados ao Oscar no currículo e chegou a festa de 1986 favorito ao prêmio por Platoon, perdendo para Michael Caine por Hannah e suas Irmãs. Dez anos depois de sua única indicação e Berenger já começava um processo de decadência, emendando projetos ruins e raras participações especiais em filmes de grande porte (A Origem). Esse Perseguição na Neve que chega hoje a Netflix é uma tentativa do espectador em reencontrar aquele grande ator de quase 40 anos atrás, escondido atrás de uma produção modesta mas de certa eficiência.

O diretor e roteirista John Barr faz sua estreia nas duas funções aqui, tendo trabalhado durante anos como assistente de fotografia de grandes produções. Não quis correr qualquer risco em sua primeira vez, se cercou de clichês emoldurados pela crise econômica, que funcionam dentro do contexto de thriller que o filme procura estar. O filme tem uma atmosfera melancólica que é pretendida pelo próprio protagonista, um homem que perdeu tudo graças a si mesmo, mas cuja recessão americana é uma sombra que o acompanha de perto. Com essa abertura mais lenta e gradual em direção aos seus gatilhos, o público que não se importar com um produto simples irá se divertir.

As sutilezas estão nos detalhes. O filme se passa durante um inverno no Maine, onde as florestas estão congeladas e a cidade não está superpovoada. A todo momento, ouvimos relatos de crimes de todos os tipos, nas tvs e nos rádios, como a nos situar das condições nos arredores do filme e do próprio recorte do seu tempo. O filme tateia tramas que sabemos onde irão dar… ou não, sempre alargando as possibilidades do suspense e protelando a chegada da tensão até Jim Reed, o homem que não tem mais nada a não ser seu motorhome – e que precisa do que o inverno oferece a ele para ter a chance de monetizar algo.

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Perseguição na Neve
Foto: Divulgação

Através da trajetória desse errante pela neve, o filme revela o desânimo do presente. Jim vive dormindo, se arrasta pelos cantos, sempre que para para tocaiar algo ou alguém, cochila e perde seu intento. Perseguição na Neve, com sua modéstia e sua simplicidade narrativa e técnica, não apenas entretém como também provoca essa faísca leve em um roteiro muito prosaico. Para não criar subterfúgios em demasia, assim que os vilões entram em cena, o filme descamba para a ação e suas deliberações mais profundas ficam pelo caminho. É o suficiente para perceber que o filme não precisava disso, apenas tomou liberdades bacanas para engrossar seu caldo.

Particularmente falando, quem me conhece, sabe meu fraco com produções que se passam em ambientes inóspitos principalmente quando o elemento neve entra em cena. O cinema já compreendeu as qualidades da vastidão branca para denunciar abandono, medo e perigo, e o tal Barr segue a cartilha direitinho para entregar uma produção redonda, um passatempo agradável e sem pretensões. E Tom Berenger? Bom, tirando a idade estampada no rosto, a presença do outrora astro garante um potencial de maturidade em frente às câmeras que dá uma credibilidade que remete ao passado, sem deixar de criar laços com o tempo presente.

Um grande momento
Jim atira errado

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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