Crítica | Streaming

Por Trás da Inocência

Seria cômico se não fosse trágico

(Deadly Illusions, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Anna Elizabeth James
  • Roteiro: Anna Elizabeth James
  • Elenco: Greer Grammer, Kristin Davis, Dermot Mulroney, Shanola Hampton, Lora Martinez-Cunningham, Ellen Humphreys, Olivia Taylor, Grayson Berry
  • Duração: 114 minutos

A máquina de lançamentos Netflix, sedenta de uma oferta incansável de novos produtos, acaba por colocar no mercado uma quantidade obscena de novos filmes, que se transformam em novos sucessos, que acabarão eventualmente esquecidos nos meses seguintes. Atualmente, esse Por Trás da Inocência ocupa esse lugar do hit do momento protagonizado por rostos conhecidos e trama pouco exigente, ou seja, um passatempo seguro que não pretende mudar a vida de nenhum espectador, mas que funciona como entretenimento ligeiro… ou essa deveria ser o máximo em preocupação que sua sinopse aventaria.

Anna Elizabeth James, roteirista e diretora, cria um universo tão excessivamente construído, que o resultado acaba por soar estéril muito rapidamente. O casal protagonista vividos por Kristin Davis (de Sex and the City) e Dermot Mulroney (de Muito Bem Acompanhada) é instalado em uma casa onde falta organicidade, cada canto parecendo milimetricamente desenvolvido sem a vida necessária para caber uma família – toda sua aparência remete a uma exposição vanguardista em um estúdio. O espaço não sugere conforto e aconchego, mas uma versão robótica de conceito familiar, quase uma propaganda falsa de imobiliária.

Por Trás da Inocência

A artificialidade não está presente somente no material estético da produção, e na verdade esse aspecto acaba sendo suavizado conforme percebemos que a sutileza não é um dado com o qual o filme se atente. Os diálogos não apenas tem construção dramática pobre como são articulados pelos atores em uma entonação que dificulta a compreensão; afinal, qual a seriedade de Por Trás da Inocência, uma produção que explicita seu tom de maneira tão aguda que, em determinado momento, a impressão é de realmente estarmos diante de uma sátira – e talvez assim suas intenções parecessem orgânicas.

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A partir da segunda metade, o roteiro parece enfim compreender sua arriscada tonalidade, mas como desde o início a abordagem escolhida para construção do suspense já é histérica de cara. Logo, quando o filme ameaça acrescentar camadas ao histórico de sua personagem principal, esse plot se perde nas soluções anteriores que a própria direção apresentou, que sugeriu um quadro de cores berrantes em sua ambientação narrativa desde o começo. Ainda assim, o filme propõe algo que justifique enfim seu tom descompensado, mesmo que aceitar essa nova fabulação só seja possível com o absoluto desprendimento lógico.

Por Trás da Inocência

Apesar do elenco como um todo não conseguir se acertar diante de um roteiro inverossímil, especialmente Kristin Davis faz as escolhas mais equivocadas e descontinuadas da produção, diminuindo um possível impacto de sua trama junto ao espectador graças ao seu desempenho, quase incompreensível. Ao seu redor, tanto Mulroney quanto a jovem Greer Grammer (que também produz o filme) seguem um padrão excessivamente dinâmico e afetado, ainda que todos estejam de acordo com o clima generalizado da obra, que em determinado momento percebemos que não tem qualquer limite, perdendo toda a credibilidade ao apostar no absurdo e na fanfarra.

Como em um liquidificador onde cabe tudo e muito mais, o filme aposta em elementos tão disparatados que é difícil compreender um limite onde Por Trás da Inocência poderia se ancorar, que nunca vem; até Hitchcock e De Palma são (mal) referenciados pela autora, sem qualquer pudor ou propósito, deixando o gosto da iguaria preparada cada vez mais indigesto… mas vai que existe mesmo uma intencionalidade na produção, que o realocasse no campo do humor diante de tanto exagero sem limites? Fica a reflexão.

Um grande momento
Não temos

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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